O Quilombo Chácara das Rosas e a Receita que ninguém escreveu
Tuane Oliveira
- agosto 17, 2026
- 11 min read
Pesquisa: Lizbeth Kossmann
Fotos: Gabriel Teixeira
As casas do Chácara das Rosas ficam frente a frente, separadas por um corredor estreito que funciona como extensão de todas elas ao mesmo tempo. Não há muros entre os pátios, só esse espaço comum, por onde se passa, se conversa, se vive. Antes de qualquer história sobre comida, é essa arquitetura que explica a comunidade: ali, quase nada é de uma casa só.
É nesse mesmo terreno, na região que mais cresce em Canoas, que está o primeiro quilombo urbano do Brasil com território totalmente titulado (uma conquista de 2009, depois de um processo que levou anos). Pergunto, antes de qualquer coisa: você sabia disso? É provável que não. É provável que, mesmo morando em Canoas, mesmo passando perto, você nunca tenha ouvido falar do Quilombo Chácara das Rosas, e esse desconhecimento, por si só, já é parte da história que este artigo tenta contar. Não é falta de importância, é o resultado de décadas em que essa comunidade existiu sem o respaldo institucional que coloca um lugar no mapa, nos livros, na memória coletiva de uma cidade.
Hoje o quilombo ocupa pouco mais de 3.600 metros quadrados no bairro Marechal Rondon (uma área que caberia, com folga, dentro de um único quarteirão do bairro de alto padrão que cresceu ao redor dela). De um lado, o Parque Getúlio Vargas, conhecido como Capão do Corvo. A poucos metros, o ParkShopping Canoas. Ao redor, lojas, boutiques, restaurantes e casas com fachadas que não lembram em nada a chácara rural que ali existiu. É um território pequeno, cercado por uma das regiões mais valorizadas da cidade, o tipo de vizinhança que torna ainda mais incômoda a pergunta que abriu esta reportagem: como um lugar tão simbólico pode ser, ao mesmo tempo, tão invisível?
Uma chácara, antes da cidade
A história começa bem antes da titulação, na década de 1940, quando João Maria Genelício de Jesus e Rosa de Jesus, descendentes de escravizados, deixaram a região de Barro Vermelho, em Gravataí, e se estabeleceram na então zona rural de Canoas (território que, à época, ainda pertencia administrativamente ao município vizinho). Ali, plantar e morar eram a mesma coisa: a família vivia da venda de verduras, frutas e flores cultivadas na própria terra. O nome “Chácara das Rosas”, aliás, vem de um corredor de flores que havia na entrada da propriedade, um eco distante daquele mesmo corredor que, décadas depois, ainda liga as casas da comunidade, hoje sem uma flor sequer.
Maria do Carmo de Jesus, uma das moradoras mais antigas da comunidade, chegou à chácara ainda criança, aos 9 anos. Em entrevista ao Canal Rural, ela descreveu o lugar como ele era: “Era uma chácara muito especial. É ainda, mas quando começou, era uma chácara muito rica, com muitas frutas, flores, criação de porcos e galinhas. Tinha gado, tinha cavalo.” É uma das poucas vozes que ainda guardam, em primeira pessoa, a lembrança de um tempo em que a terra sustentava integralmente quem nela vivia.
O que o silêncio sobre a comida revela
Talvez o dado mais honesto sobre a alimentação no Chácara das Rosas hoje seja este: não existe uma memória gastronômica consolidada, um prato ou uma receita que sirva como símbolo único da comunidade. E essa ausência, por si só, já é uma informação.
Existem pesquisas sobre a luta pela terra no Chácara das Rosas. Existem pesquisas sobre sua religião, sua identidade étnica, os conflitos com a vizinhança, o processo de titulação. O que não existe (em nenhum registro que encontrei) é um estudo sobre o que essa comunidade comia, como cozinhava, o que considerava digno de ser passado adiante à mesa. A comida nunca foi vista como história suficiente para ser escrita. Ficou de fora do que se documentou, do mesmo jeito que ficou de fora, aos poucos, da própria vida cotidiana da comunidade, não porque a comunidade tenha decidido esquecer, mas porque ninguém, nem de dentro nem de fora, parou pra registrar antes que se perdesse.
Isso também ajuda a explicar por que essa memória nunca chegou a se firmar: a trajetória reconhecida do quilombo é recente (o reconhecimento oficial veio em 2007, a titulação em 2009) e por décadas a comunidade viveu sem o respaldo institucional que permite a uma cultura se documentar e se afirmar. A casa de matriz africana segue existindo no território e ainda guarda parte dessa história, mas hoje poucos moradores a frequentam. A comunidade, em sua maioria, é formada por parentes em algum grau: o Chácara das Rosas é, na prática, uma grande família estendida ocupando a mesma terra desde a fundação.
O nome que ficou na placa
Em algum momento dessa trajetória, uma mulher carregou boa parte do peso de manter o quilombo de pé: Isabel Cristina Genelício, descendente direta da família fundadora. Nascida em 1970, Isabel atravessou os anos mais difíceis da luta pelo reconhecimento e pela titulação da terra, e seguiu como guardiã da comunidade até sua morte, em 2019.
Antes de partir, idealizou uma cozinha comunitária, um espaço para que a comida do Chácara das Rosas voltasse a ser feita e dividida coletivamente, como antes. A cozinha existe hoje, fisicamente erguida, mas segue incompleta: falta equipamento para que funcione plenamente. É como se o projeto de Isabel estivesse parado a meio caminho, esperando que a comunidade reúna forças para terminar o que ela começou.
Em 2025, um memorial foi inaugurado em sua homenagem, com uma frase que resume o espírito do lugar: “Que este espaço celebre a força de um povo que floresce em união, memória e resistência.”
Essa transformação não é exclusividade do Chácara das Rosas, mas explica boa parte do que se perdeu pelo caminho. Foi a partir das décadas de 1960, 70 e 80 (com a industrialização de Canoas) que a especulação imobiliária passou a avançar sobre o território, ameaçando a permanência da comunidade. Foi nesse contexto que o Chácara das Rosas recorreu ao artigo 68 da Constituição de 1988 como forma de proteção, dando início ao longo caminho que terminaria na titulação de 2009.
O que ainda cresce
Nem tudo se perdeu. Na última visita à comunidade, encontrei manjericão e boldo crescendo livremente em um canto do terreno, plantados há anos pela avó da Giane. As folhas ainda estão ali, viçosas, resistindo ao tempo e ao abandono parcial do espaço ao redor.
A horta da comunidade hoje é um mosaico de vitalidades diferentes. Em parte dela, pés de laranja carregados de fruto, fortes o suficiente para resistir sozinhos mesmo sem muito cuidado. Em outra parte, os canteiros mais baixos (hortaliças, ervas) estão mais fragilizados, e só o tio Biel ainda cuida deles com regularidade. Essa não é a primeira horta da história da comunidade: registros fotográficos de uma pesquisa feita pela Unilasalle em 2009 mostram que, décadas atrás, a chamada “Horta do Sr. Tonho” e a “Horta do Sauro” eram tratadas como tradições centrais do Chácara das Rosas, ao lado das roseiras que dão nome ao território. Mas mesmo esses registros são fotografias soltas, sem relato de quem fazia o quê com aquilo que colhia, sem receita, sem nome de prato, o vestígio de uma prática, não a memória dela.
No passado, segundo Giane, o uso de chás e ervas medicinais era parte do cotidiano: banhos para problemas de saúde, infusões caseiras, um saber prático transmitido de geração em geração. Hoje, esse hábito praticamente desapareceu. A alimentação do dia a dia no Chácara das Rosas não é muito diferente da do restante da cidade.
Uma identidade contida pelo medo
Giane conta que, hoje, a afirmação da identidade quilombola é mais discreta do que poderia ser, não por desinteresse, mas por medo do racismo. É uma tensão que atravessa muitas comunidades negras urbanas no Brasil: quanto mais visível a identidade, maior a exposição a julgamentos e violências.
Some-se a isso um problema concreto e urgente: o acesso à água. A comunidade enfrenta hoje uma disputa com a prefeitura de Canoas em torno dessa questão básica, um lembrete de que a permanência no território, mesmo já titulado, segue sendo uma luta diária.
Sinais de resgate
Apesar de tudo, há movimento, e ele passa, justamente, pela comida.
Em 2022, dez moradoras da comunidade, ao lado de imigrantes venezuelanas, concluíram um curso de panificação e confeitaria, em parceria com o Complexo Penitenciário de Canoas. A padaria comunitária, equipada com doação da Emater, começou a produzir pães, bolos, folhados, salgadinhos de festa, quiches e tortas. Meses depois, em dezembro daquele ano, um grupo de moradoras apresentou esses produtos a empresários da cidade, numa degustação que era, ao mesmo tempo, festa e proposta de trabalho: a padaria como fonte de renda própria, gerida pelas próprias mãos da comunidade.
Em paralelo, em parceria com a Unisinos, moradoras do Chácara das Rosas (entre elas Giane) participam hoje de um curso de gastronomia dentro do projeto Educar Crescer, iniciativa de três anos mantida pela universidade junto ao Programa Petrobras Socioambiental. Um dos subprojetos, batizado de “Alimentar”, tem como objetivo inserir mulheres e jovens no mercado de trabalho por meio de empregos formais ou empreendimentos solidários na área de alimentação. As oficinas acontecem na própria cozinha do curso de Gastronomia da universidade, em São Leopoldo.
São dois movimentos que caminham em paralelo ao sonho inacabado de Isabel: enquanto a cozinha comunitária do Chácara das Rosas ainda espera por equipamentos, a padaria já funciona, e uma nova geração de mulheres da comunidade está, a poucos quilômetros dali, aprendendo a transformar comida em ofício e em renda.
“Trabalhavam fora, vinham tarde e lidavam na terra. No outro dia já estavam nos canteiros.... Era tudo da horta.”
O resgate como tarefa, não como saudade
Giane fala pouco em nostalgia e muito em tarefa. Para ela, o mais importante agora não é lamentar o que se perdeu, mas garantir que o legado dos bisavós que fundaram o quilombo (e de Isabel, que dedicou a vida a mantê-lo de pé) não se apague de vez com as próximas gerações. Os jovens da comunidade, segundo ela, têm hoje pouco interesse nessa cultura; reconstruir esse elo é, talvez, o trabalho mais urgente de todos.
Fui convidada a retornar à comunidade para conhecer pessoalmente a cozinha que Isabel sonhou. Essa visita, e o que ela revelar, ainda está por vir. E talvez seja exatamente isso o que falta: não recuperar uma memória perdida, mas começar a escrever uma que nunca tinha sido registrada, para que, da próxima vez que alguém perguntar o que o Chácara das Rosas come, e por quê, a resposta já não seja silêncio. ▉
Fontes consultadas
- ARISTIMUNHO, Lilian Ghisso. Quilombo Urbano Chácara das Rosas: Conformação de Identidades. São Paulo: Pimenta Cultural, 2021.
- AVANCINI, Elsa Gonçalves; AGUILAR, Maria do Carmo. Quilombo Chácara das Rosas: Memória de uma comunidade negra em Canoas/RS. Apresentação de pesquisa, Unilasalle, 2009.
- CANAL RURAL. “Quilombo em Canoas (RS) busca ampliar projetos em educação”. Reportagem com depoimento de Maria do Carmo de Jesus, moradora.
- COMIN, Ana Paula. O Planeta dos Negros no Mundo dos Brancos: estudo sobre a manutenção e atualização das fronteiras étnicas de uma comunidade negra em Canoas/RS. Dissertação de Mestrado, PPG Antropologia/UFRGS, 2003.
- LIMA, Sebastião Henrique Santos. Comunidade quilombola Chácara das Rosas do município de Canoas/RS: a trajetória do estigma à luta por reconhecimento. Dissertação de Mestrado, PGDR/UFRGS, 2017.
- OLIVEIRA, Vinícius Pereira de; RODRIGUES, Vera Oliveira. O ontem e o hoje de uma luta quilombola: Relatório Antropológico e Histórico de uma comunidade negra em Canoas/RS. Porto Alegre: FAURGS/INCRA-RS, 2007.
- PREFEITURA MUNICIPAL DE CANOAS. “Quilombolas de Canoas promovem degustação de produtos de padaria a empresários”. Notícias, dezembro de 2022.
- UNISINOS. “Unisinos recebe comitê da Petrobras”. Notícias Unisinos, 3 de setembro de 2025.
- Memorial Isabel Cristina Genelício, Quilombo Chácara das Rosas, Canoas/RS, inaugurado em 2025.
- Entrevista concedida por Giane Santos, moradora e liderança do Quilombo Chácara das Rosas, à autora.