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Cinco comunidades que ajudam a contar a gastronomia de Canoas

Procurar uma única comida capaz de representar Canoas talvez seja reduzir demais uma cidade formada por sucessivas ondas de migração, deslocamentos internos e comunidades que criaram maneiras próprias de viver e de comer. Antes e depois de o xis se tornar uma referência local, diferentes grupos mantiveram receitas, técnicas de conservação, formas de produzir alimentos e rituais em torno da mesa. Algumas dessas tradições permanecem muito visíveis; outras sobrevivem dentro das casas ou precisam ser recuperadas antes que desapareçam. Cinco comunidades ajudam a mostrar como essa diversidade foi parar no prato canoense.

Comunidade ucraniana

No bairro Niterói, a comunidade ucraniana talvez seja um dos exemplos mais evidentes de uma tradição gastronômica preservada coletivamente em Canoas. Formada principalmente a partir da chegada de refugiados no final da década de 1940, ela construiu ao redor da igreja uma rede de convivência na qual religião, idioma, dança e alimentação permaneceram conectados. Nos encontros comunitários continuam aparecendo pratos como o varênyky, pequenos pastéis de massa cozida recheados principalmente com batata, o borsch de beterraba, os charutos de repolho, pães festivos e outras preparações transmitidas entre gerações. Há ainda alimentos ligados diretamente ao calendário religioso, como a paska da Páscoa e os pratos preparados para o Natal. Mais do que conservar receitas estrangeiras dentro da cidade, essas famílias mostram como a comida pode funcionar como uma espécie de arquivo doméstico: ingredientes mudam, alguns modos de preparo são adaptados, mas sentar à mesa continua sendo uma maneira de dizer de onde aquela família veio.

Comunidade de origem alemã

Entre os descendentes de alemães de Canoas, a tradição gastronômica aparece menos concentrada em um único bairro e mais espalhada pelas famílias, associações e encontros culturais. Na casa dos Gewehr, por exemplo, a memória germânica passa pelo chucrute, pelas conservas de pepino e outros vegetais, pela carne de porco, linguiça, cuca, batata-doce caramelada e bolo de carne. São preparações que carregam técnicas desenvolvidas muito antes da refrigeração doméstica, quando fermentar, conservar em vinagre, guardar carne na banha e aproveitar aquilo que a horta produzia eram questões de sobrevivência. Em Canoas, esses hábitos foram se misturando naturalmente à alimentação brasileira. Uma antiga fotografia de aniversário da família reúne pastel, quindim e torta de chocolate com carne de porco, pepino, linguiça e morcilha. É justamente nessa mistura que a tradição se torna interessante: a comida alemã da cidade não ficou congelada na imigração, mas foi sendo incorporada aos almoços de domingo, aniversários e reuniões familiares, enquanto eventos e entidades como o Centro Cultural 25 de Julho ajudavam a manter outras manifestações dessa origem.

Comunidade pesqueira do Paquetá

Na Praia do Paquetá, gastronomia e território praticamente não podem ser separados. A comunidade se formou às margens de um ambiente em que o peixe não é apenas um prato típico, mas fonte de renda, alimento cotidiano e parte de uma maneira particular de se relacionar com Canoas. Traíra, jundiá, piava, pintado, carpa e viola aparecem na pesca, na venda direta e nas cozinhas dos bares e das casas. O peixe pode chegar frito, ensopado ou transformado em bolinho, enquanto parte do pescado é vendida para visitantes que atravessam a região justamente para levar o produto para preparar em casa. Durante muito tempo, moradores de outras margens também faziam o percurso de barco para almoçar na praia. É uma gastronomia que nasceu muito menos de um cardápio planejado do que daquilo que o rio oferecia naquele dia. Por isso, falar da comunidade pesqueira do Paquetá é lembrar que Canoas também possui uma cozinha ligada às águas, anterior à imagem contemporânea da cidade industrial e urbana que costuma dominar sua narrativa.

Comunidade quilombola Chácara das Rosas

No Quilombo Chácara das Rosas, no bairro Marechal Rondon, a relação com a alimentação conta uma história diferente: aqui, tão importante quanto aquilo que foi preservado é perceber aquilo que quase deixou de ser registrado. A comunidade surgiu em uma antiga chácara onde a família cultivava verduras, frutas e flores e criava animais como porcos e galinhas. Hortas, árvores frutíferas, ervas medicinais e conhecimentos transmitidos dentro da família fizeram parte desse cotidiano, mas poucas receitas chegaram a ser documentadas. A urbanização e a pressão sobre o território modificaram profundamente essa relação com a terra. Hoje ainda existem pés de laranja, manjericão, boldo e vestígios das antigas hortas, enquanto novas iniciativas procuram novamente aproximar alimentação, autonomia e comunidade. Uma padaria comunitária passou a produzir pães, bolos, folhados, salgados, quiches e tortas, e moradoras também participam de projetos de formação em gastronomia. Nesse caso, preservar a memória gastronômica não significa simplesmente repetir uma receita antiga: significa reconstruir uma história alimentar que durante muito tempo ninguém considerou importante o suficiente para registrar.

A comunidade de Nova Bréscia e a herança italiana

Existe ainda uma comunidade menos evidente nos mapas de Canoas, mas muito presente na história de seus restaurantes: a formada por moradores vindos de Nova Bréscia e seus descendentes. O pequeno município do Vale do Taquari, colonizado majoritariamente por famílias de origem italiana, tornou-se conhecido pela diáspora de garçons, assadores e proprietários de restaurantes que se espalharam pelo Brasil a partir principalmente da segunda metade do século XX. Canoas entrou diretamente nesse circuito. Famílias como os Valgoi, do Italianíssimo, e os Zambiasi, ligados ao Paçoquinha, trouxeram para a cidade não apenas referências italianas, mas uma cultura profissional de salão, churrascaria, abundância e serviço aprendida dentro dessa rede de parentes e conterrâneos. O resultado não foi uma cozinha italiana preservada de maneira purista. Em Canoas, essa tradição aparece misturada ao churrasco, ao espeto corrido, às massas, às pizzas, aos buffets e ao modelo de restaurante familiar que marcou a cidade durante décadas. É um bom exemplo de como uma migração relativamente recente também pode transformar a identidade gastronômica de um lugar sem necessariamente deixar um prato único como assinatura.

Essas cinco comunidades não esgotam a formação gastronômica de Canoas. Pelo contrário, ajudam a perceber quantas outras camadas ainda podem ser encontradas. A identidade alimentar da cidade parece estar justamente nessa sobreposição: o peixe pescado no Paquetá, o repolho fermentado numa casa de descendentes de alemães, o varênyky preparado em Niterói, a horta de uma comunidade quilombola e o restaurante aberto por uma família que deixou Nova Bréscia. Antes de existir uma comida que represente Canoas inteira, existem muitas Canoas sentadas à mesma mesa. Essas cinco comunidades não esgotam a formação gastronômica de Canoas. Pelo contrário, ajudam a perceber quantas outras camadas ainda podem ser encontradas. A identidade alimentar da cidade parece estar justamente nessa sobreposição: o peixe pescado no Paquetá, o repolho fermentado numa casa de descendentes de alemães, o varênyky preparado em Niterói, a horta de uma comunidade quilombola e o restaurante aberto por uma família que deixou Nova Bréscia. Antes de existir uma comida que represente Canoas inteira, existem muitas Canoas sentadas à mesma mesa.Essas cinco comunidades não esgotam a formação gastronômica de Canoas. Pelo contrário, ajudam a perceber quantas outras camadas ainda podem ser encontradas. A identidade alimentar da cidade parece estar justamente nessa sobreposição: o peixe pescado no Paquetá, o repolho fermentado numa casa de descendentes de alemães, o varênyky preparado em Niterói, a horta de uma comunidade quilombola e o restaurante aberto por uma família que deixou Nova Bréscia. Antes de existir uma comida que represente Canoas inteira, existem muitas Canoas sentadas à mesma mesa. ⬛

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