A praia que Canoas esqueceu
Adelino Bilhalva
- junho 28, 2026
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O asfalto termina antes da Praia do Paquetá. Não há portal, placa turística, nada que diga ao motorista que, depois daquela curva, Canoas encosta em uma de suas margens mais antigas, mais improváveis e menos contadas. A cidade simplesmente parece perder o interesse. Dali em diante, a estrada fica mais áspera, as casas se abrem para o rio, os barcos aparecem como extensão dos pátios e a paisagem passa a obedecer a outro tipo de urbanismo, menos desenhado por engenheiros e mais pela altura da água.
Entrevista: Lizbeth Kossmann e Adelino Bilhalva
Paulo Denilto sorri no meio desse cenário como alguém que já explicou muitas vezes que ali não é fim de mundo. É começo de rio. Engenheiro ambiental, integrante da associação de pescadores, liderança comunitária e morador do Paquetá há quase três décadas, ele chegou quando havia pouco mais de vinte famílias. Gosta de contar que foi a vigésima terceira. Antes, morava no Niterói. Trabalhava muito, andava de jet ski, circulava pelo rio, pescava por lazer. Depois comprou uma casa e começou a pescar de outro jeito. O que era escape virou território.
A história da Praia do Paquetá, no entanto, começa antes da comunidade atual. Paulo lembra de uma época em que a margem mais frequentada ficava do outro lado, onde era a praia original. Nos anos 1960, antes da abertura do canal navegável, barqueiros encostavam por ali. Nos fins de semana, gente de Porto Alegre atravessava para almoçar em um bar que só era acessível por água.
A configuração atual da praia está diretamente ligada às intervenções feitas no leito do rio para viabilizar a navegação comercial. A partir da década de 1960, com a intensificação das obras de dragagem e desassoreamento conduzidas pelo então Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis (DNPVN), e posteriormente pelo DNIT, grandes volumes de sedimentos foram retirados do fundo do rio para aprofundar o canal de navegação utilizado por embarcações de carga.
Parte desse material dragado foi depositada nas margens, alterando o desenho natural da orla e contribuindo para a formação de bancos de areia que, com o tempo, se consolidaram como áreas de praia. Estudos sobre a hidrogeomorfologia do Delta do Jacuí indicam que essas intervenções humanas modificaram significativamente a dinâmica de sedimentação da região, criando novas superfícies expostas e alterando o fluxo das águas (FEPAM, Relatórios Técnicos sobre o Delta do Jacuí; DNIT, Plano Hidroviário da Região Sul). Assim, a praia que hoje existe no Paquetá não é apenas resultado de processos naturais, mas também de uma engenharia voltada à navegação, que redesenhou a margem e abriu espaço para o uso recreativo que viria depois.
O barco, no Paquetá, nunca foi uma coisa só. Serve para pescar, trabalhar, atravessar, passear, fugir do calor, buscar silêncio, encontrar gente, voltar para casa. Durante a enchente, virou também abrigo. Em outros lugares, a chegada dos barcos teve o espanto de uma emergência. Ali, eles já estavam. Não como exceção, mas como ferramenta diária, parte da economia, do lazer e da sobrevivência.
Por isso há algo de enganoso em olhar para o Paquetá apenas como uma região vulnerável. É claro que a água atingiu as casas. Na foto, podemos ver a marca da água da enchente cobrindo bem mais que a metade do segundo andar da casa verde. Quem vê a imagem pensa em retirada, perda, susto. Houve tudo isso. Mas também houve uma familiaridade dura com o rio. Algumas pessoas ficaram meses em barcos enquanto as casas permaneciam submersas. Não porque fosse simples, nem porque houvesse qualquer romantismo em viver cercado de água, mas porque, no Paquetá, a água não é visitante. É vizinha antiga.
Paulo fala da enchente sem o tom de quem descobriu o risco tarde demais. Fala como quem já sabia que o rio tem suas vontades, seus avisos e suas grosserias. A comunidade aprendeu a ler sinais. A altura da água. O vento. A cor. A circulação. O olho dos peixes. Segundo ele, quando há poluição, os pescadores percebem antes de qualquer boletim: olham os olhos dos peixes e avaliam se ainda é possível pescar. A ciência oficial mede em laudo. A ciência do rio também mede em costume.
Não é por falta de ouvir. Não é por falta de reivindicar. É má vontade política.
Essa intimidade aparece no prato. A gastronomia do Paquetá não se organiza como folclore de folder turístico. Ela nasce da pesca, da venda, do almoço de família, dos bares simples, das frituras feitas no ponto em que o peixe ainda parece guardar alguma notícia da água. Ali se fala em traíra, jundiá, piava, pintado, carpa. Fala-se também em violinha, ensopado, peixe frito, bolo de peixe. A comida não é um enfeite cultural. É economia, hábito e sobrevivência.
Em torno da praia, há bares e restaurantes que mantêm essa relação direta com o rio. Gente que vai até lá para comer peixe. Gente que pesca para vender. Gente que pesca para comer. Gente que faz as duas coisas quando precisa. Na entrada de um dos bares, fechado no inverno, uma placa escrita à mão lista o que se come ali: piava, pintado, viola, tainha, traíra, jundiá, bolinho. Mesmo sem movimento na baixa temporada, a lista fica exposta para quem passa na estrada. Também indica outra forma de venda: o peixe para levar para casa. Paulo tem outras atividades, mas lembra que muitas famílias vivem apenas da pesca. Na enchente, os pescadores venderam peixe para se sustentar. A frase tem uma simplicidade quase cruel: quando a terra falhou, o rio continuou dando trabalho.
A tradição de preparar peixe atravessa as famílias da comunidade. Não aparece como receita escrita, dessas com medida exata. Está mais perto da memória de mão: limpar, temperar, fritar, assar, engrossar um caldo, aproveitar o que veio na rede. O Paquetá não cozinha para provar identidade. Cozinha porque o rio chega antes à panela.
Talvez por isso incomode tanto a sensação de abandono. Paulo não fala do Paquetá como quem pede caridade. Fala como quem aponta um desperdício. Canoas tem uma praia, uma comunidade pesqueira, uma paisagem de rio, uma memória de balneário, uma culinária própria e uma relação histórica com a navegação. Mesmo assim, a cidade parece tratar aquele pedaço como rodapé. O asfalto que acaba antes de chegar ali é uma fotografia involuntária de política pública: a infraestrutura vem até certo ponto, depois desiste.
A palavra “balneável” aparece na conversa com menos ingenuidade do que se poderia imaginar. Paulo sabe que o rio muda. Sabe que depende do vento, da chuva, da circulação. Não vende paraíso. Mas também não aceita a desculpa fácil de que nada pode ser feito. Cita outras prainhas, outros municípios, outros lugares que encontraram algum modo de transformar margem em convivência. No Paquetá, a margem existe. O convívio também. Falta a cidade enxergar.
Em uma das cenas mais bonitas da visita, um grupo de meninos se banha no rio enquanto uma bola colorida voa acima da água. Não é uma imagem de cartão-postal. Parece uma infância encontrada fora do inventário oficial da cidade. Nada ali pede autorização estética. A cena acontece porque o rio está ali, porque alguém trouxe uma bola e porque, apesar de tudo, o Paquetá segue sendo praia.
Mais adiante, outra fotografia parece pedir um texto próprio. Um cachorro de rua divide a beira d’água com urubus e pombas. O cachorro observa. As pombas circulam. Na margem, restos de oferendas religiosas acrescentam uma camada delicada à cena. Paulo comenta que religiões de matriz africana usam aquele espaço para suas entregas e que, com isso, os urubus passaram a aparecer mais. O assunto exige cuidado. Não se trata de transformar fé em problema, nem de reduzir uma prática espiritual a resíduo. A fotografia pede uma legenda mais complexa que ainda não encontrei.
O Paquetá está cheio dessas imagens que escapam do resumo. Casas marcadas pela enchente. Barcos parados. Hortas, Churrasqueiras. Cachorros. Crianças. Carros. Silêncio. Um lugar onde a vida parece ter se organizado de um jeitinho só seu.
A conversa com Paulo também abre outras margens. Ele fala que o bairro tem a mesma denominação e é protegido pelas mesmas leis que comunidades indígenas e quilombolas. O Paquetá, nesse sentido, não é uma exceção isolada. É parte de uma Canoas que existe fora do retrato mais repetido da cidade: industrial, apressada, atravessada por avenidas e trilhos. Há outra Canoas ali, anfíbia, popular, pesqueira, religiosa.
No fim, a pergunta não é se o Paquetá poderia virar atração turística. Poderia, mas essa é uma resposta pequena. A pergunta maior é por que Canoas parece aceitar tão facilmente que uma parte de sua própria memória permaneça fora do mapa. Antes de ser passeio, o Paquetá é território, é peixe no prato, barco, espera e trabalho. ▉