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Taberna do Gato: mais de três décadas de história servindo Canoas

Taberna do Gato: mais de três décadas de história servindo Canoas

Luciano Gradaschi passou a vida vendendo xis em Canoas. Mesmo assim, não gosta muito quando dizem que a cidade é a capital do sanduíche.

Entrevista: Lizbeth Kossmann

A opinião parece contraditória. Afinal, há mais de três décadas ele trabalha atrás de uma chapa quente, vendo passar gerações de clientes pela Taberna do Gato. Seu irmão foi um dos pioneiros na criação do xis coração, uma das variações mais conhecidas do sanduíche gaúcho. O negócio sustentou a família, atravessou crises econômicas, pandemias, enchentes e mudanças de endereço. Ainda assim, quando o assunto surge, Luciano faz uma pausa e pondera:

“Eu não concordo muito.”

A frase não vem de quem despreza o xis. Vem justamente de quem o conhece demais.

 

Natural de Soledade, ele chegou a Canoas em 1991. Tinha pouco mais de quarenta anos e encontrou na cidade o lugar onde construiria sua trajetória. Desde então, adotou Canoas como cidade definitiva. Hoje, aos 69 anos, continua atendendo atrás do balcão da Taberna do Gato, na Rua Doutor Barcelos. O estabelecimento está no endereço atual há 22 anos, mas sua história começou antes, do outro lado da rua. Algumas das receitas permanecem praticamente as mesmas desde aquela época. A torre de batata servida na casa, por exemplo, nasceu de uma invenção sua nos primeiros anos de funcionamento.

 

Enquanto fala sobre o passado, Luciano observa o movimento da rua. A conversa inevitavelmente retorna ao presente. Ele lembra de uma época em que encontrar vaga para estacionar era mais fácil e o Centro tinha outro ritmo. Hoje, acredita que a falta de estacionamento afasta clientes e ajuda a explicar parte da redução do movimento.

 

A pandemia deixou marcas. As enchentes de 2024 também. Durante meses, familiares desalojados ocuparam o andar superior do prédio. O impacto econômico, segundo ele, ainda é sentido pelos comerciantes da região. Mesmo assim, a chapa continua acesa.

 

Quando fala sobre o futuro, Luciano não demonstra entusiasmo em transformar o negócio numa herança familiar. Há uma sinceridade quase brutal quando explica o motivo:

“Quanto mais longe eles ficarem do bar, melhor.”

 

Equipe do Taberna do Gato 2

A gastronomia exige noites, fins de semana e feriados. Exige abrir as portas quando a maioria das pessoas está descansando.

Não é falta de orgulho. É conhecimento de causa. A gastronomia exige noites, fins de semana e feriados. Exige abrir as portas quando a maioria das pessoas está descansando. Exige uma dedicação que ele conhece há décadas.

 

Talvez por isso suas observações sobre Canoas raramente sejam românticas. Ele prefere olhar para a cidade como ela é. Uma cidade diversa, onde convivem pizzarias, lancherias, restaurantes, bares e cozinhas de todos os tipos. Uma cidade que, na sua opinião, não cabe dentro de um único prato. Ainda assim, se um visitante perguntar onde comer um xis tradicional, a resposta provavelmente será a mesma há muitos anos.

 

Em algum momento da noite, inevitavelmente, ele acabará sentado numa das mesas da Taberna do Gato, observando o movimento e servindo um sanduíche cuja história se mistura à da própria cidade. Mesmo sem acreditar que Canoas seja a cidade do xis, Luciano Gradaschi ajudou a construir uma parte importante dessa fama. ▉

Sobre o autor

Adelino Bilhalva

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