Como a comunidade ucraniana mantém viva sua identidade em Canoas
Adelino Bilhalva
- junho 1, 2026
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Quando se fala em imigração no Rio Grande do Sul, os holofotes costumam apontar para alemães e italianos. Mas caminhando pelas ruas do bairro Niterói, em Canoas, existe uma história menos conhecida que atravessou guerras, fronteiras e oceanos antes de encontrar abrigo às margens do Rio dos Sinos. Ela começa na Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial e continua, até hoje, em mesas fartas de varênyky, sopas vermelhas fumegantes, pães festivos e receitas que sobreviveram a quase oito décadas de distância da terra onde nasceram.
Fotos: Gabriel Teixeira
Entrevista: Lizbeth Kossmann
A comunidade ucraniana de Canoas surgiu por volta de 1948, quando famílias refugiadas chegaram ao Brasil em busca de um recomeço. Muitos encontraram trabalho em um frigorífico instalado próximo ao rio, numa região que ainda possuía amplos campos e baixa ocupação urbana. Acostumados aos invernos rigorosos da Europa Oriental, esses imigrantes se adaptaram com relativa facilidade ao trabalho em ambientes refrigerados e acabaram construindo suas vidas no bairro Niterói. Ali ergueram casas, criaram famílias e lançaram as bases de uma comunidade que permanece ativa até hoje.
Entre os descendentes dessa geração está Swetlana Margaret Cvirkun Urbanski, conhecida por todos simplesmente como Lana. Enfermeira e atual presidente da paróquia ucraniana local, ela pertence à terceira geração da família nascida em solo brasileiro. Seus pais chegaram ao país ainda crianças, acompanhando os avós que fugiam das consequências da guerra. Hoje, seus filhos e netos continuam participando das atividades culturais da comunidade, demonstrando como essa herança atravessou o tempo sem perder suas raízes.
Pouco depois da chegada ao Brasil, os imigrantes perceberam que precisavam de um espaço capaz de reunir não apenas a fé, mas também a cultura que haviam trazido consigo. Surgiu então a igreja, seguida pelo salão comunitário. Ao redor dessas estruturas nasceu uma rede de convivência que ajudou a preservar idioma, música, dança, religiosidade e gastronomia. Atualmente a comunidade reúne cerca de sessenta famílias e mantém uma agenda regular de atividades religiosas e culturais, mesmo sem contar com um padre residente. Sacerdotes vindos de Curitiba e da Igreja Grega visitam periodicamente a paróquia para celebrar missas e acompanhar a comunidade.
Quem visita o espaço percebe rapidamente que a preservação cultural acontece de forma menos solene do que se imagina. Ela está nos detalhes. Nos ícones religiosos espalhados pela igreja. Nos bordados geométricos presentes nas roupas tradicionais. Nas receitas guardadas por décadas. Nas panelas ocupando o fogão da cozinha comunitária. E nas conversas que acontecem enquanto alguém prepara um prato para mais um almoço coletivo. Em muitos lugares, tradições acabam restritas a apresentações ocasionais ou datas comemorativas. Em Niterói, elas continuam integradas à rotina.
Entre as iniciativas responsáveis por essa continuidade está o grupo folclórico Solovei. Criado há mais de vinte e cinco anos, ele reúne descendentes de diferentes gerações em torno da dança tradicional ucraniana. Ao longo de sua trajetória, o grupo realizou apresentações em diversas regiões do Brasil e também no exterior. Mais do que uma atividade artística, tornou-se uma ferramenta de transmissão cultural, aproximando crianças e jovens de costumes que poderiam se perder com o passar do tempo.
Mas talvez nenhum elemento seja tão eficiente para preservar a memória quanto a comida. Quando perguntada sobre a lembrança gastronômica mais marcante da infância, Lana não respondeu citando uma receita. Falou da avó. Foi com ela que passou grande parte dos primeiros anos de vida. A avó, que falava predominantemente ucraniano e teve dificuldade de aprender português mesmo após décadas vivendo no Brasil, preparava os pratos tradicionais da família enquanto transmitia, sem perceber, muito mais do que técnicas culinárias. Transmitia pertencimento.
Em quase todas as histórias sobre comida que surgiram durante a conversa, uma figura aparecia repetidamente: a avó.
Em quase todas as histórias sobre comida que surgiram durante a conversa, uma figura aparecia repetidamente: a avó. Não por acaso. Grande parte do conhecimento culinário da comunidade foi transmitido por mulheres que chegaram ao Brasil carregando poucas malas, mas muitas receitas na memória. Algumas delas jamais escreveram um livro ou um caderno de receitas. Ainda assim, conseguiram ensinar técnicas, sabores e modos de preparo que atravessaram gerações e permanecem presentes até hoje.
Entre essas receitas está o varênyky, considerado um dos pratos mais emblemáticos da culinária ucraniana. São pequenos pastéis de massa cozida, tradicionalmente recheados com batata e servidos com nata. Diferentemente de muitos salgados conhecidos pelos brasileiros, eles não são fritos. O cozimento produz uma textura delicada que combina com o recheio simples e reconfortante. Outro clássico é o borsch, chamado por muitos descendentes simplesmente de borche. Preparado com beterraba, repolho e carne, ele possui uma coloração intensa que se tornou uma das marcas registradas da culinária ucraniana. Mais do que uma receita, ele revela muito sobre a vida em regiões de inverno rigoroso, onde ingredientes como batata, repolho e beterraba precisavam ser armazenados por longos períodos para garantir alimento durante os meses mais frios do ano
Nem tudo chegou ao Brasil exatamente da mesma forma. Algumas adaptações foram inevitáveis. Certos ingredientes utilizados na Ucrânia são difíceis de encontrar por aqui. O repolho fermentado tradicional, por exemplo, depende de condições específicas que nem sempre podem ser reproduzidas da mesma maneira. Temperos como o endro também exigem substituições ocasionais. Ainda assim, essas mudanças não descaracterizaram a culinária. Pelo contrário. Elas contam a própria história da imigração, mostrando como uma tradição consegue sobreviver sem permanecer congelada no tempo.
Entre os pratos lembrados por Lana está também o Cutiá, sobremesa preparada com trigo sarraceno cozido, mel, castanhas, nozes, damascos e uvas-passas. O preparo ocupa lugar importante nas celebrações familiares e exemplifica uma característica comum da culinária ucraniana: a combinação de ingredientes simples com sabores intensos e simbólicos. Ao lado dele aparecem também os pãezinhos assados recheados com maçã ou uvas pretas, doces que permanecem presentes na memória afetiva de muitos descendentes.
Algumas receitas aparecem apenas em ocasiões especiais. É o caso do Karavai, pão tradicional dos casamentos ucranianos. Decorado com flores, tranças, folhas e pombas moldadas na própria massa, ele funciona quase como uma escultura comestível. Depois de assado, recebe uma camada de gema que lhe confere brilho dourado. Cada elemento decorativo possui significado simbólico relacionado à prosperidade, à união e à fertilidade do casal. É o tipo de alimento que ultrapassa a função de nutrir para se tornar parte do ritual.
Uma parte importante desse patrimônio foi registrada em livro. Há cerca de uma década, integrantes da comunidade colaboraram com uma pesquisa acadêmica que resultou na publicação de uma coletânea de receitas tradicionais ucranianas. O trabalho reuniu fotografias, relatos e modos de preparo transmitidos oralmente por gerações. Mais do que um livro de receitas, tornou-se um documento histórico capaz de preservar conhecimentos que poderiam se perder com o tempo.
A vida comunitária continua girando em torno de um calendário anual de celebrações. Há os almoços da quaresma, a festa da padroeira Santíssima Trindade, as comemorações da independência da Ucrânia em agosto e os encontros de Natal e Páscoa. Na Páscoa, os alimentos são levados à igreja para serem benzidos antes de serem compartilhados entre familiares. Entre eles está a Pascha, pão festivo tradicional, além dos ovos pintados que fazem parte da tradição pascal. Já no Natal, permanece viva a tradição de servir oito pratos típicos à mesa.
Nem mesmo as bebidas escapam da tradição. Lana recorda a Horilka, uma vodka preparada artesanalmente com infusão de pimenta e um toque de mel. Em antigas tradições familiares, ela era consumida antes de refeições quentes durante o inverno. Em alguns casos, acompanhada até mesmo de um dente de alho cru. Mais do que uma curiosidade gastronômica, o costume ajuda a compreender como alimentação e clima sempre caminharam juntos na cultura ucraniana.
Ao final da conversa, surgiu uma reflexão sobre Canoas. Lana lamentou que a cidade não possua mais eventos permanentes dedicados às diferentes comunidades culturais que ajudaram a construí-la. Talvez tenha razão. Histórias como a da comunidade ucraniana mostram que a gastronomia não é apenas uma questão de sabor. Ela é também uma forma de preservar memória, identidade e pertencimento. Quase oitenta anos depois da chegada dos primeiros refugiados ao bairro Niterói, suas receitas continuam sendo preparadas, seus costumes continuam sendo praticados e sua história continua sendo compartilhada à mesa. Talvez seja justamente aí que resida o verdadeiro patrimônio gastronômico de uma cidade: não apenas nos pratos que ela inventa, mas nas histórias que consegue preservar.









