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Uma investigação sobre as origens indígenas de Canoas

Uma investigação sobre as origens indígenas de Canoas

Ao pesquisar a história de Canoas, uma afirmação aparecia repetidamente em praticamente todos os livros e textos históricos sobre a cidade: antes da chegada dos portugueses, o território canoense teria sido habitado pelos indígenas Tapes. A frase é recorrente, quase automática, repetida por diferentes autores ao longo de décadas, normalmente sem grande aprofundamento sobre quais seriam exatamente esses grupos indígenas, onde estariam localizados e quais evidências históricas ou arqueológicas sustentariam essa afirmação.

Ao pesquisar a história de Canoas, uma afirmação aparecia repetidamente em praticamente todos os livros e textos históricos sobre a cidade: antes da chegada dos portugueses, o território canoense teria sido habitado pelos indígenas Tapes. A frase é recorrente, quase automática, repetida por diferentes autores ao longo de décadas, normalmente sem grande aprofundamento sobre quais seriam exatamente esses grupos indígenas, onde estariam localizados e quais evidências históricas ou arqueológicas sustentariam essa afirmação. A pesquisa inicialmente tinha outro objetivo. A ideia era compreender quais hábitos alimentares dos chamados Tapes poderiam ter sobrevivido na gastronomia contemporânea de Canoas. Porém, ao tentar identificar quem eram esses indígenas e quais eram suas práticas alimentares, surgiu uma dificuldade inesperada: localizar fontes históricas concretas que comprovassem a existência de aldeamentos tapes permanentes no atual território do município. Conforme os documentos começaram a ser cruzados, a investigação revelou um cenário mais complexo do que a narrativa tradicional costuma apresentar. O que aparece nos registros históricos não é exatamente uma comprovação direta da presença tape em Canoas, mas uma combinação de mapas etnográficos amplos, confusões administrativas entre municípios coloniais, referências genéricas aos guaranis do sul e associações posteriores feitas pela historiografia local.

Teschauer, Carlos. Poranduba Riograndense 1929 pag. 229. Mapa que possivelmente originou a confusão.

Grande parte da origem dessa interpretação parece estar ligada aos antigos mapas etnográficos do Rio Grande do Sul produzidos entre o século XIX e início do século XX. Em obras como Poranduba Riograndense, do padre Carlos Teschauer, extensas áreas do atual território gaúcho aparecem identificadas como regiões dos “Tapes” ou “Tape-Guarani”. O problema é que esses mapas não delimitavam aldeias específicas. Tratavam-se de classificações culturais amplas, aplicadas a territórios enormes, muitas vezes abrangendo quase todo o centro e leste do estado. Em muitos textos da época, o termo “Tape” também aparece misturado a outras classificações, como Guarani, Carijó, missioneiro ou tape-guarani, quase sempre de maneira pouco precisa. Em certos casos, “Tape” parece indicar simplesmente indígenas guaranizados ligados às reduções jesuíticas. Em outros, aparece como uma categoria regional usada pelos cronistas coloniais para diferentes populações indígenas do sul do Brasil.

Outro elemento que pode ter contribuído para a consolidação dessa ideia foi a relação histórica entre Canoas e Gravataí. Durante parte do período colonial, o território canoense pertencia administrativamente à Freguesia de Nossa Senhora dos Anjos de Gravataí. E é justamente em Gravataí que aparecem registros históricos mais concretos envolvendo indígenas tapes ligados às Missões Jesuíticas. O cônego João Pedro Gay, em sua História da República Jesuítica do Paraguai, descreve a Aldeia dos Anjos como um núcleo formado por indígenas tapes vindos das Missões do Uruguai e instalados na região por determinação do governo português no século XVIII. Com o passar do tempo, muitos desses indígenas teriam se dispersado por diferentes partes da província. A partir daí, é possível que acontecimentos relacionados à Aldeia dos Anjos tenham sido posteriormente incorporados, de maneira genérica, à história de Canoas, já que o território canoense fazia parte da mesma jurisdição administrativa naquele período. Além disso, Nova Santa Rita era integrada a Canoas até sua emancipação em 1992 e cabe destacar que alguns dos sítios arqueológicos indígenas descobertos na área historicamente associada a Canoas estão localizados precisamente nessas regiões que hoje não pertencem mais ao município.

 

 

Os registros arqueológicos catalogados pelo IPHAN incluem sítios como RS-S-272 (Morretes), RS-S-274 (Berto Círio 1) e RS-S-275 (Berto Círio 2). Esses sítios demonstram presença indígena pré-colonial na região ampliada do antigo território canoense. Entretanto, os estudos arqueológicos associados a eles apontam principalmente para grupos meridionais, ancestrais dos atuais Kaingang, ligados à chamada Tradição Taquara. Ou seja: os próprios vestígios arqueológicos encontrados na região não reforçam diretamente a narrativa tradicional sobre uma ocupação tape-guarani em Canoas. Eles indicam a presença indígena, mas não exatamente dos grupos frequentemente citados pela historiografia local.

 

 

Isso não significa afirmar que não houve circulação ou presença guarani na região. O vale do Gravataí, o Rio dos Sinos e as áreas próximas ao Guaíba faziam parte de importantes rotas indígenas muito antes da chegada dos colonizadores europeus. A própria dinâmica das populações indígenas no sul do Brasil era marcada por deslocamentos, alianças, guerras, migrações e contatos culturais constantes. O problema está menos na ideia de presença indígena e mais na simplificação excessiva de atribuir automaticamente essa presença aos “Tapes”, como se houvesse uma comprovação histórica direta e inequívoca disso no território urbano atual de Canoas.

Então não existe em canoas alimentos atuais com tradição indígena?

Mesmo sem confirmação definitiva sobre aldeamentos tapes em Canoas, é evidente que a culinária gaúcha incorporou profundamente elementos alimentares indígenas ao longo dos séculos. Diversos pratos e preparações presentes até hoje na região têm origem direta nos hábitos alimentares dos povos originários do sul do Brasil. O consumo da mandioca, por exemplo, permanece extremamente presente no cotidiano gaúcho, seja cozida, frita ou transformada em farinha. Preparações à base de milho, como mingaus, canjicas e angus, também têm raízes indígenas bastante antigas. O pinhão, tradicional no inverno do sul do Brasil, já era coletado e consumido por povos meridionais muito antes da colonização europeia. O amendoim e a batata-doce aparecem frequentemente em registros históricos ligados à agricultura indígena pré-colonial. O próprio chimarrão talvez seja o exemplo mais evidente dessa permanência cultural: o consumo ritual e cotidiano da erva-mate já fazia parte da vida de diferentes grupos indígenas da região sul antes da chegada dos portugueses e espanhóis.

 

Além dos ingredientes, permaneceram técnicas e hábitos alimentares. O uso de alimentos defumados, preparações farináceas, bebidas fermentadas à base de milho e mandioca e formas específicas de cultivo e coleta foram incorporados à cultura regional ao longo dos séculos. Muitos desses costumes sobreviveram de forma tão integrada à identidade gaúcha que frequentemente deixam de ser percebidos como heranças indígenas.

A principal conclusão talvez não seja negar a presença indígena em Canoas, mas reconhecer que a narrativa tradicional simplificou excessivamente uma realidade histórica muito mais complexa

Ao final da pesquisa, a principal conclusão talvez não seja negar a presença indígena em Canoas, mas reconhecer que a narrativa tradicional simplificou excessivamente uma realidade histórica muito mais complexa. Existem evidências de presença indígena na região historicamente ligada ao município. Existem influências culturais indígenas profundas na formação alimentar e social do Rio Grande do Sul. Existem registros concretos envolvendo indígenas tapes em Gravataí e nas Missões. Mas não foram encontradas, até o momento, evidências arqueológicas ou documentais conclusivas que comprovem a existência de aldeamentos tapes permanentes no território correspondente ao atual núcleo urbano de Canoas.

 

 

Durante décadas, parte da historiografia local repetiu essa afirmação sem apresentar claramente suas fontes primárias. Hoje, muitos desses autores já não estão vivos, o que torna difícil rastrear exatamente de onde surgiram determinadas interpretações que acabaram se consolidando como verdades históricas locais.

 

Talvez a principal descoberta desta investigação seja justamente perceber que a história indígena da região é mais diversa, mais fragmentada e mais complexa do que a memória simplificada que chegou até nós.

Referências

  • Teschauer, Carlos. Poranduba Riograndense. Porto Alegre, 1929.
  • Gay, João Pedro. História da República Jesuítica do Paraguai.
  • Silva, João Palma da. As Origens de Canoas. Canoas.
  • Ribeiro, Pedro Augusto Mentz. O índio pré-histórico e histórico dos vales dos rios Pardo e Caí.
  • Inácio, Pedro. O Índio no Rio Grande do Sul. Governo do Estado do Rio Grande do Sul, 1975.
  • Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos.
  • Primeiro Seminário de Estudos Gaúchos. PUCRS.
  • Freitas, Amadeu Fagundes de Oliveira. Informações elementares sobre a influência indígena na formação do Rio Grande do Sul. 1975.
  • IBGE. Histórico territorial de Canoas, Gravataí, São Leopoldo e Nova Santa Rita.
Sobre o autor

Adelino Bilhalva

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