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Revelações da Pesquisa Escolar sobre Identidade e Tradição

Revelações da Pesquisa Escolar sobre Identidade e Tradição

O projeto Memória Gastronômica Canoense embarcou em uma jornada para desvendar as camadas culinárias de Canoas, buscando ir além da imagem consolidada de “Cidade do Xis”. Uma pesquisa recente, conduzida com estudantes da rede pública, notadamente da E.E.E.M. Guarani, oferece um panorama de como a alimentação se entrelaça com a identidade, a memória afetiva e as dinâmicas familiares na cidade.

O Xis: Mais que um Lanche, um Pilar da Identidade Canoense

A pesquisa confirmou o status icônico do Xis em Canoas. Longe de ser apenas um lanche, ele emerge como um verdadeiro símbolo cultural, um ponto de convergência para memórias e afetos. A menção recorrente de estabelecimentos específicos não se limita à qualidade do produto, mas evoca uma “sensação de nostalgia” e pertencimento, conforme expressado pelos próprios estudantes.

 

Os Favoritos: Onde o Sabor Encontra a Memória

Os dados revelam uma clara preferência, com o Rapach destacando-se como o favorito, seguido por outros nomes que compõem o mapa afetivo-gastronômico da cidade. A análise das menções espontâneas demonstra a força da tradição e da reputação construída ao longo do tempo.


Essa pulverização de menções em “Outros” (quase 60%) sugere que, embora existam grandes nomes, a cultura do Xis em Canoas é também capilarizada, com inúmeras pequenas lancherias contribuindo para a riqueza gastronômica local. Cada uma delas, com suas particularidades, fortalece a identidade culinária da cidade.

Estabelecimento Menções (%) Aspectos Qualitativos Associados
Rapach
20,5%
“Saboroso”, “quentinho e suculento”, “nostalgia”, “bastante molho e complemento gostoso”.
08&80
9,8%
“Saboroso”, “grande”, “bem recheado”, “diversas variedades”.
Cia do Xis
4,5%
“Bom e barato”, “muito molhado”.
Xis Mauá
4,5%
“Bom e barato”, “não é caro”.
BM Lanches
1,8%
“Muito gostoso”, “preparado com ingredientes frescos”.
Outros
58,9%
Diversidade de lancherias de bairro, cada uma com seu público fiel.

O Coração da Casa:
Quem Cozinha e a Frequência das Refeições Domésticas

A pesquisa aprofundou-se nas dinâmicas da cozinha doméstica, revelando que a tradição culinária em Canoas é predominantemente mantida pelas figuras femininas, mas com uma notável e crescente participação dos jovens. As “receitas de família” citadas, como o pudim de gerações, a maionese caseira e o pão caseiro, são mais do que meros pratos; são elos que conectam passado e presente, guardiões de histórias e sabores que atravessam o tempo.
 
Embora as mães ainda sejam as principais responsáveis, a autonomia dos estudantes na cozinha é um fenômeno a ser observado, indicando uma possível transição de papéis ou uma necessidade de autossuficiência.
 
Essa distribuição sugere que, enquanto a figura materna permanece central na transmissão do saber culinário, os jovens estão cada vez mais engajados na preparação de suas próprias refeições. 
 

Um dos achados mais impactantes da pesquisa é a alta frequência de refeições preparadas e consumidas em casa. 83,3% das famílias afirmam realizar todas as refeições em casa todos os dias da semana. Este dado sublinha a importância do lar como o principal palco da experiência gastronômica em Canoas, reforçando a relevância de um projeto que valorize e documente essa cultura.

 

Essa estatística não apenas destaca a força da cozinha doméstica, mas também a oportunidade do projeto de oferecer recursos que apoiem e enriqueçam essa prática diária, desde receitas tradicionais até dicas de aproveitamento de alimentos.

83,3%

das famílias afirmam realizar todas as refeições em casa todos os dias da semana.

A Escola como Território de Memória Gastronômica e Formação de Paladar

A escola, para muitos, é o primeiro contato com uma alimentação coletiva e padronizada, mas também um espaço de formação de paladar e de memórias afetivas. Os relatos dos estudantes sobre a merenda escolar são um microcosmo da cultura alimentar local, revelando o que é valorizado e o que é rejeitado desde cedo.
 
As lembranças com carinho incluem pratos como polenta com molho, carreteiro de frango e o clássico “Nescau com bolacha“. Esses itens, muitas vezes simples, carregam um peso afetivo significativo, associado a momentos de convívio e conforto. Por outro lado, a “carne de soja” e a “massa alho e óleo” foram consistentemente citadas como rejeições, indicando uma preferência por sabores mais familiares e talvez uma resistência a inovações percebidas como menos saborosas ou artificiais.
 
As “curiosidades”, como a presença de “arroz de leite” na merenda, que alguns consideraram “bizarro”, ou a demanda por mais opções de sucos, mostram a diversidade de expectativas e a constante negociação entre o que é oferecido e o que é culturalmente aceito. 
 

O que a Pesquisa Revela sobre a Alma Gastronômica de Canoas

A pesquisa com os estudantes de Canoas, ao cruzar dados quantitativos com narrativas pessoais, revela uma alma gastronômica complexa. Ela nos mostra que a comida em Canoas é um veículo poderoso de identidade e pertencimento, onde o Xis não é apenas um lanche, mas um ponto de encontro de gerações e memórias. A cozinha doméstica, com sua alta frequência e o papel central das mães, é o alicerce da cultura alimentar, um espaço de transmissão de saberes e afetos que resiste às transformações do mundo moderno.
 
Esses achados sublinham a urgência e a relevância do projeto Memória Gastronômica Canoense. Ele não apenas documentará receitas e locais, mas, fundamentalmente, registrará as histórias, os sentimentos e as conexões humanas que dão vida à mesa canoense. Ao fazer isso, o projeto contribui para que a gastronomia de Canoas seja reconhecida não apenas por seus sabores, mas como um espelho da sua gente, da sua história e do seu futuro.
Sobre o autor

Adelino Bilhalva

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