A canoas que se alimentava do próprio quintal
Adelino Bilhalva
- agosto 16, 2026
- 81 min read
Entrevista: Lizbeth Kossmann
Fotos: Gabriel Teixeira
Quando Lidia Lysenko Tscheka tenta localizar a própria infância, quase não precisa voltar à Europa. Nasceu na Áustria, filha de ucranianos que atravessavam o continente como refugiados, mas tinha cerca de dois anos quando chegou ao Brasil. Aos 82, as imagens que consegue recuperar por conta própria começam praticamente todas em Canoas. “As minhas lembranças são daqui”, resume.
A conta coloca sua chegada por volta de 1946, justamente quando a cidade recém-emancipada experimentava uma transformação acelerada: Canoas havia sido criada como município em 27 de junho de 1939 e instalada em janeiro de 1940, com pouco mais de 40 mil habitantes. Nos anos seguintes, especialmente depois da Segunda Guerra, loteamentos, indústrias e sucessivas levas de trabalhadores mudariam rapidamente uma paisagem que ainda guardava muito de rural. A infância que Lídia descreve pertence exatamente a esse intervalo. Na sua lembrança, Niterói ainda era mato, terreno baixo, rua ruim, horta, carroça e criação de animais. Para chegar a certos lugares, caminhava quilômetros. Para comer, porém, muitas vezes bastava atravessar o quintal.
A história anterior a isso ela conhece sobretudo pelo relato dos pais. A família saiu da Ucrânia durante a guerra, passou por outros países europeus e viveu algum tempo na Áustria, onde Lídia nasceu. O medo continuou mesmo depois do fim do conflito. Ela lembra das histórias sobre documentos que refugiados destruíam para evitar identificação e repatriação e da insegurança de famílias que já não sabiam exatamente onde conseguiriam reconstruir a vida. Depois veio o navio, o Rio de Janeiro e uma decisão que se repetiu para milhares de imigrantes naquele período: para onde ir em um país que não conheciam? Em Canoas, os pais encontraram conhecidos, terrenos que podiam ser pagos aos poucos e uma comunidade que começava a se formar. O livro Canoas – Para lembrar quem somos, dedicado à história de Niterói, registra um movimento bastante parecido. A presença ucraniana no bairro e no vizinho Rio Branco aumentou especialmente no pós-guerra, embora a primeira família ucraniana identificada pela pesquisa, a de Nicolau Sydor, já tivesse se estabelecido em Niterói em 1932.


Grupo de fundadores da Comunidade Ucraniana de Niterói – Canoas 1955 a 1958. Da esquerda para a direita: Oleifirenko, Cvirkum, Michailovski, Schwetz, Brochenko, Manchenko Juravel, Lisenko, Berusko, Deniz, Michailovski e Holbelko.
Niterói era, literalmente, um loteamento nascido sobre uma paisagem de produção de alimentos. A Empresa Territorial Nictheroy Ltda. foi fundada em 15 de outubro de 1931 e começou a vender terrenos baratos e parcelados; parte significativa da área havia pertencido aos irmãos Alberto e Frederico Bins e era utilizada para o cultivo de arroz. Arthur Oscar Jochims, personagem central na formação do bairro e responsável pela empresa loteadora, também havia trabalhado com granja de arroz. O livro recuperado para esta pesquisa é particularmente precioso porque deixa de tratar essa paisagem como abstração: moradores lembram granjas alagadiças, casas esparsas, carroções, ausência de água encanada e iluminação e pequenas hortas cultivadas ao lado das moradias. Um dos relatos registra um casal começando a vida em Niterói com ele trabalhando fora e ela cuidando de uma pequena horta; à noite, depois do trabalho, o marido fazia reparos na casa à luz de lampião. Quando Lídia, sete décadas depois, diz que “ali era mato”, sua memória encontra outras vozes dizendo praticamente a mesma coisa.
Havia uma razão física para o arroz e para tantas lembranças de água. Niterói cresceu em terrenos baixos, ligados ao sistema do rio Gravataí, e a ocupação dessas áreas produziu uma longa convivência com alagamentos. O próprio livro registra divergências entre moradores sobre o quanto o bairro seria originalmente banhado ou bem drenado, mas documenta que áreas sujeitas a inundações foram ocupadas e que a enchente de 1941 chegou a interromper temporariamente novas construções. Lídia não precisa de documentos para se lembrar disso. Diz que, quando chovia, o caminho para a igreja alagava; associa a região a mato e água e comenta, quase como quem reconhece uma velha característica da cidade, que os alagamentos “não são de agora”. O detalhe ganha outra dimensão quando colocado ao lado da cronologia urbana. Entre 1946 e 1950, período muito próximo ao da chegada de sua família, mais 365 hectares foram loteados em Canoas; entre 1951 e 1955, foram 1.140 hectares. O avanço era tão rápido que, até os anos 1970, as áreas mais densamente povoadas da cidade não estavam no Centro, mas justamente ao sul, em Rio Branco e Niterói.
Foi nesse bairro em construção que a família encontrou uma maneira de comer que tinha tanto de necessidade quanto de tradição. Lídia se recorda de praticamente cada casa mantendo alguma coisa plantada no terreno. Os adultos trabalhavam durante o dia, voltavam para casa e ainda mexiam na terra. Preparavam canteiros, semeavam, plantavam. “Era tudo da horta”, conta. O mercado, no sentido contemporâneo, simplesmente não organizava a alimentação cotidiana. Havia pequenos comerciantes e vendedores que circulavam pelo bairro; ela se lembra de uma caminhonete que passava levando leite e de vizinhos que vendiam aquilo que produziam. Verduras vinham dos próprios terrenos. Animais eram criados nas casas e eventualmente abatidos. O livro sobre Niterói reforça esse cenário ao registrar os poucos armazéns dos primeiros tempos, os estabelecimentos de “secos e molhados” e a importância das pequenas plantações domésticas. Não se tratava de uma nostalgia programada pela vida no campo. Era o sistema de abastecimento possível para uma população operária instalada depressa em uma cidade cuja infraestrutura não crescia na mesma velocidade que seus moradores.
“Trabalhavam fora, vinham tarde e lidavam na terra. No outro dia já estavam nos canteiros.... Era tudo da horta.”
É uma frase simples, mas talvez uma das descrições mais importantes que encontramos até agora sobre a história da alimentação cotidiana de Canoas. Antes do supermercado abastecer a casa, a própria casa participava do abastecimento. A vizinhança também não era apenas uma relação social: fazia circular leite, verduras, carne e outros alimentos. Essa economia doméstica convivia com outra transformação que acontecia quase ao lado: a industrialização da comida. Em 1936 havia sido inaugurado em Canoas o Frigosul, Frigoríficos Nacionais Sul-Brasileiros, considerado uma das primeiras grandes instalações industriais do município. Em determinado período, cerca de dois mil canoenses chegaram a trabalhar na empresa. Assim, em poucos quilômetros, coexistiam duas formas de produção alimentar que ajudam a explicar a cidade daquele momento: galinhas, hortas e pequenos cultivos dentro dos lotes, enquanto bois eram abatidos e carne era processada em escala industrial.
Dentro de casa ocorria outra transformação, menos visível e talvez ainda mais interessante para uma história gastronômica. A cozinha trazida pelos pais não encontrou no Brasil exatamente os mesmos ingredientes, costumes ou preferências. Lídia oferece um exemplo aparentemente banal: o feijão. Ela se lembra de que o feijão preto não fazia parte do repertório alimentar da família como passaria a fazer depois; fala do feijão branco como algo familiar aos europeus e do estranhamento diante daquele novo ingrediente. Décadas depois, quando tenta resumir a comida cotidiana, a lista já poderia pertencer a incontáveis casas gaúchas: “feijão, arroz, carne, ovo estrelado”. E, quando a conversa chega ao churrasco, responde que agora “é só churrasco mesmo”. Em uma única geração, o prato registra o deslocamento que os documentos de imigração normalmente descrevem através de navios, fronteiras e nacionalidades. Não houve uma data em que a família deixou de comer como ucraniana e passou a comer como brasileira. Houve almoço após almoço.


Foto retirada da primeira propaganda da Empresa Territorial Nichteroy em 1933, Fonte: Canoas – Pra Lembrar Quem Somos: Niterói, 2ª edição revisada. Rejane Penna, Darnis Corbellini e Miguel Gayeski.
Primeira propaganda da Empresa Territorial Nichteroy em 1933, Fonte: Canoas – Pra Lembrar Quem Somos: Niterói, 2ª edição revisada. Rejane Penna, Darnis Corbellini e Miguel Gayeski.
Isso não significa que a cozinha de origem tenha desaparecido. A comunidade ucraniana de Canoas preservou receitas, celebrações religiosas e alimentos associados a determinados períodos do calendário, algo que permanece evidente ainda hoje nos eventos da igreja. Em entrevista anterior deste projeto, Swetlana falou dos varênyky, do borsch, do repolho fermentado, da paska preparada para a Páscoa e dos alimentos levados para serem benzidos antes de compartilhados pelas famílias. Também contou como algumas receitas precisaram se adaptar às condições locais, fosse pela dificuldade de reproduzir determinado processo de fermentação, fosse pela disponibilidade de temperos. A experiência de Lídia ajuda a enxergar o outro lado desse fenômeno. Enquanto algumas comidas eram deliberadamente preservadas porque pertenciam à memória e à identidade do grupo, outras entravam sem cerimônia pela rotina: o feijão, o arroz, o churrasco, aquilo que os vizinhos produziam, aquilo que estava disponível no comércio, aquilo que uma criança aprendia a reconhecer como comida de casa.
A igreja teve um papel importante nessa preservação, mas também nasceu de uma lógica muito semelhante à da alimentação: fazer com aquilo que havia. Lídia lembra dos adultos comprando o terreno, juntando materiais e oferecendo trabalho porque dinheiro quase ninguém tinha. Um sabia eletricidade, outro entendia de construção, seu pai trabalhava com madeira. Ela o descreve como um “faz-tudo” e recorda que ele participou diretamente da construção do templo, reproduzindo formas que trazia da memória da Europa. As famílias apareciam para ajudar e levavam comida para quem trabalhava. Casa, igreja e comida compartilhavam, portanto, o mesmo método de existência: cooperação. A comunidade que cavava o poço em conjunto era também a comunidade que construía a igreja em conjunto e que, na hora da obra, alimentava em conjunto os que estavam ali.
Esse tipo de organização fazia sentido numa cidade em que quase tudo parecia provisório ou insuficiente. Canoas tinha acabado de completar poucos anos como município quando Lídia chegou. Sua população crescia numa velocidade que as ruas, redes de água, drenagem, escolas e comércio não acompanhavam. Em 1956, o então prefeito Sezefredo Azambuja Vieira reclamava oficialmente de uma cidade formada por loteamentos privados e soluções de emergência, consequência de um crescimento que havia ocupado rapidamente grandes extensões de terra. Para uma criança, porém, planejamento urbano tinha outras unidades de medida. Era a distância percorrida até a escola. Era o pedregulho da rua. Lídia conta que, quando ganhou um tamanco novo, caminhava parte do trajeto descalça para não gastá-lo e só calçava novamente o par quando se aproximava do Colégio São Paulo. Era também o cavalo, a carroça, o leiteiro chegando, o pai transportando móveis, a mãe saindo para o frigorífico antes do amanhecer.
Ao lembrar daquele tempo, ela também menciona uma Canoas que oferecia poucas opções de restaurantes ou bares em sua experiência cotidiana. A pergunta sobre onde as pessoas comiam fora quase perde o sentido diante de uma infância em que comer era predominantemente um acontecimento doméstico. O lazer tinha outros destinos. Lídia guarda a Praia do Paquetá como uma espécie de grande diversão disponível às famílias da cidade, cheia de crianças e frequentadores numa época em que as opções eram poucas. É mais uma peça de uma Canoas cujo mapa afetivo e alimentar era diferente do atual: o rio como lazer, o quintal como despensa, o armazém como complemento, o frigorífico como emprego e a cozinha de casa como lugar onde culturas diferentes começavam lentamente a se misturar.
Talvez seja por isso que as lembranças gastronômicas de Lídia sejam mais valiosas quando ela não está tentando falar especificamente de gastronomia. O que aparece em sua entrevista não é uma coleção organizada de receitas antigas. É algo mais raro: a engrenagem cotidiana que fazia a comida chegar à mesa. Quem plantava. Quem vendia. Quem criava. Onde se trabalhava. Como se transportava. O que ainda não existia. Qual alimento parecia estranho a quem havia acabado de chegar. O que foi incorporado depois. É possível acompanhar, através de uma única família, a passagem de uma cidade onde alimentos ainda eram produzidos dentro dos terrenos para outra organizada por mercados, indústrias e comércio; e, ao mesmo tempo, a passagem de uma família de refugiados que carregava hábitos alimentares europeus para filhos e netos perfeitamente capazes de considerar arroz, feijão e churrasco parte natural de sua própria história.
Lídia diz sentir muita saudade daquela Canoas. Não idealiza tudo. Lembra do barro, da dificuldade, das distâncias, da falta de infraestrutura e do trabalho pesado dos pais. Ainda assim, quando a conversa se volta para a infância, diz que às vezes pensa: “Que tempo maravilhoso”. Talvez a comida ajude a entender a contradição. Quase nada era fácil, mas muita coisa dependia diretamente das pessoas que estavam ao redor: o homem que passava com o leite, o vizinho que tinha criação, a família que cuidava do canteiro depois do expediente, o grupo que se reunia para construir uma casa ou erguer uma igreja, a mãe que saía de madrugada para trabalhar e o pai que a levava de carroça.
Hoje, olhando para Niterói, é difícil imaginar que debaixo das ruas, casas e estabelecimentos comerciais existiram arrozais e terrenos onde famílias recém-chegadas da Europa plantavam parte do próprio almoço. E talvez seja justamente aí que sua história deixa de pertencer apenas à comunidade ucraniana. Porque, quando uma refugiada de dois anos começa a formar suas primeiras lembranças em Canoas, enquanto aprende o gosto dos alimentos disponíveis neste lado do mundo, alguma coisa também está acontecendo com a própria cidade. As duas estão aprendendo, ao mesmo tempo, a ser daqui. ▉
Transcrição completa da Entrevista
Transcrição revisada — Entrevista com Lídia
Projeto Canoas — Memória Gastronômica
Nota de revisão: timestamps removidos; falas consecutivas do mesmo locutor agrupadas; pontuação e nomes próprios normalizados. A oralidade foi preservada. Trechos que não puderam ser recuperados com segurança a partir da transcrição-base foram marcados como [inaudível].
Lizbeth Kossmann: Vou botar parte de ti para te ouvir, tá? Nada que a gente. Eu vou te mandar primeiro para publicar pra no site. Olha primeiro e depois tu me diz. Isso aqui é só pra nós. A gente estava sentindo uma dificuldade assim, de conversar com alguém que viveu em Canoas, na infância.
Lídia: Escola.
Lizbeth Kossmann: Porque é coisa que tu viveu. Que ano veio pra cá?
Lídia: [inaudível] A gente chegou no Rio de Janeiro e lá e já estava procurando pra que lado ir, porque num monte de famílias tem tudo pra come lá se. E aí então tinha que vir porque tinha diversos lugares e a pessoa não conhecia. Então achei que meus pais logo e uma turma de lá de compasso, conhecidos por mim, já se agruparam para ir junto comigo pro mesmo lugar que é o fórum pra rodar o mundo. Tinha uma colônia grande de animação, o segundo andar, só que era a fábrica de calçado. Aquelas de Novo Hamburgo, que cedeu estrangeiro [inaudível]. [inaudível] E aí, nesse meio tempo, abriram se um lote em Canoas. Eu não me lembro muito o senhor. Eu conhecia ele muito bem, mas não me lembro o nome, que ele morava na beira da faixa lá de Niterói. A casa. E aí apareceu aquele lote tudo pra baixo. Aí, assim como a tábua.
Lizbeth Kossmann: E até hoje vocês estão lá, né?
Lídia: Não, não é só a igreja. Ah, vai casar lá. E aí? Então o que é que foi a gente lá de novo? O muro, aquele grupo todo grande que estava lá e resolveram vim pra cá. Então os meus pais ficaram do lado de cá e eu vou ficar no extremo caso isolado. Ou então, por outro lado, já aí foi assim comprar os terrenos foram me pagando e eu sei quantas vezes eu fiquei achando e quando eu fazia alguma coisa assim, tava vamos abrir um poço. Todos os caminhões vazios se juntavam na colônia ucraniana. Eles se juntavam fazendo um esforço, depois a casa. E assim foi indo por um ano e 11 ia pra lá, o outro vinha pra cá e se filhos. Então ele começou a se formar um grupo e. E aí o meu pai então pegou a parte mais baixa lá pra cria, mais pequeninho, mais espaço, sabe de onde, não sente sozinho. Mas não, não conseguiu. Comprou um só porque viu que não dava, né? E ali, depois eles trabalhando juntos e tudo e começaram a trabalhar. Mas nós temos que ter na nossa cultura alguma coisa, algum empreendimento. Vamos ver se tem mais gente que queira entrar no nosso grupo. E eu resolvi que a primeira coisa que eles fizeram compraram o terreno onde está a igreja naquele local? Não? E começaram também, assim como eles faziam nas casas e se juntaram. Eles foram fazendo na igreja, ninguém tinha dinheiro para doar, eles não tinha nada, praticamente deram uma maior. Sim, mas só o esforço de cada um. Até um eletricista instalou as luzes, o outro era não sei quem é o meu pai. Ele tinha envelhecido lá. Um problema grave. Ele trabalhava na mina lá na Europa e [inaudível]. Então ele falou também Mas como é que se diz assim? Não é feito de gesso e ele é colocado ali e a gente nunca imaginava. E ele começou com isso, sabe? Não, eu tenho que. Eu tenho que fazer alguma coisa. Deus ajudou a gente a sair do lugar desse inferno que estava lá e nós aqui. Agora todo mundo.
Lizbeth Kossmann: Junto. Foi na ditadura do Stalin.
Lídia: Naquela época.
Lizbeth Kossmann: Da Segunda Guerra.
Lídia: Da Segunda Guerra e então [inaudível] e cada um foi se alternando, se o ali, o que eles fizeram e começaram a comprar material e guardar material, nós pouco guardamos. Aí o meu pai entrou na mão de obra, entrou com a mão de obra.
Lizbeth Kossmann: Porque ele já faz tudo, né?
Lídia: Ele era o pai, ele era o faz tudo bem isso aí. E aí, o que ele começou fazer? Ele começou a construir a igreja. Eu sozinho, sozinho, já não tinha, porque os outros também.
Lizbeth Kossmann: Ajudavam jogo por tijolo.
Lídia: Ajudavam quando dava, porque trabalhar não tinha compromisso, né? E aí.
Lizbeth Kossmann: Foi. Então eu estou preocupado.
Lídia: Com a situação não sei porque, mas aí foi que eles começaram a fazer o alicerce, se juntaram rapidinho com a família, levavam lanche pra todo, que era tipo uma creche. Vamos lá. Aí o meu pai me senti lá. E aí quando chegou na parte de cima, aquelas pessoas, aquelas coisas, ele nunca saiu, nunca fez.
Lizbeth Kossmann: Isso e foi uma coisa arquitetônica.
Lídia: Única. Mas nesse meio tempo ele já tinha os instrumentos de oficina, então ele queria trabalhar com a madeira. E aí ele começou a falar e chegou a fazer tudo aquilo. Ele fez assim uma armação e começou. Treinou todo mundo e aí começou a fazer e colocar isso aí.
Lizbeth Kossmann: E a estética que ele.
Lídia: Lembrava, a estética que se lembrava de lá. E aí então ele fez a parte da frente toda e chegou assim mais um porta lateral que ninguém via mais pra fora. Todo mundo esperando. Então aí eles fizeram de madeira, conseguiu uma madeira, tiveram doações e terminaram com a madeira. Aí depois é que foi feito. A gente da igreja. Até o empresário era o Alexandre, chefe da gaúcha.
Lizbeth Kossmann: Aquele Elas me falaram.
Lídia: Que aquele lá ia, que era um só e fez aquela obra toda. E aí o pai começou a fazer aquele salão. Foi tudo com as mãozinha dele, uma pessoa que ressuscitou, sabe? É o que ele disse agora vai dar pra família, pra mãe, né?
Lizbeth Kossmann: Ele falava português.
Lídia: Está aprendendo a fazer mais, não diretamente. Assim, sem ser. E aí ele disse assim não, nós vamos fazer mais isso. Então tá bom fizer, então tá ali. E eles quando vieram não sabia nada. Só que eles também um pouco do Alemão, porque antes de sair da Ucrânia, ali eles foram meio fugidos pra outros países, refugiado, refugiado. E aí num momento eles chegaram na naus que eles chegaram a uns aos três, moraram um tempo, trabalharam lá e as esposa também trabalhavam na casa da família. E assim foram. Foi lá que eu nasci.
Lizbeth Kossmann: Não foi nada alemã.
Lídia: Eu sou da Áustria, terra da nossa felicidade. É só fazer.
Lizbeth Kossmann: E aí lá naquela época estava feia a guerra lá não.
Lídia: E olha, eu já tava com duas filhas, duas crianças pequenas, ai eu peguei e trazer aqui e ai então.
Lizbeth Kossmann: Vocês conheceram os judeus que.
Lídia: Sua mãe já estava grávida, mas ela nem sabia, coitados. Aí eu nasci na Austrália e aí foi no segundo ano, aí no início lá você sabe que eles eram muito cativos e eles foram se chegando na praia, no meio onde se encontravam, que eram os setores, né, que voltassem tudo pra lá e pra.
Lizbeth Kossmann: Sem vocês, no caso, eram os.
Lídia: Setores leva o nome. Nós escapamos. E aí os Estados Unidos mandou o primeiro navio para resgatar. Então o primeiro navio que eu era era enorme.
Lizbeth Kossmann: Só um parênteses que já viu o menino do pijama listrado aqui. Ai é um filme sobre bem, a tua história assim é só uma história que tem um final triste. Inferi que eles eram judeus, né? Ai mostra no final assim os Estados Unidos chegando também.
Lídia: E aí chegaram na escadinha, chegou e a gente foi embarcando.
Lizbeth Kossmann: Então tudo era bem pequenininha sim.
Lídia: Bebezinho, bebezinha. E aí eu sei que começaram a sair, [inaudível]? Mas é uma coisa pessoal, eles estavam um pouco com medo, ai agora eles pego nós aqui com os documentos, tudo já começava a botar os documentos lá na.
Lizbeth Kossmann: Água, botar.
Lídia: Pra fora pra não ter identidade. Então reformamos aqui porque claro, também trabalhava no setor público, tal e que se.
Lizbeth Kossmann: Tirassem a possibilidade.
Lídia: De possibilidade, né? Então foi.
Lizbeth Kossmann: O nome.
Lídia: Que me chamou a atenção. Tem muita gente que confessou que trocaram porque tinham medo, porque os familiares eram pessoas graduadas. E aí vem sofrer, né? Então foi assim, muito, muito, muito triste [inaudível].
Lizbeth Kossmann: Casa, Vocês vieram de navio.
Lídia: Avião, navio.
Lizbeth Kossmann: Isso. Como é que foi a viagem de lei? E também.
Lídia: Não é Sim, eu estava sempre com medo.
Lizbeth Kossmann: Ou esse é o fator.
Lídia: Ah, esse ai meu Deus, tem que se ajeitar, Mas vai. Como é que.
Lizbeth Kossmann: Pra esse guri foi meu aluno que eu acredito? Eu não sei.
Lídia: Careta aquele ditador jovem, ele também.
Lizbeth Kossmann: Quer um cafezinho? Já tirei porque a gente não conhece. Ele é muito bom aluno.
Lídia: Bom pra ver.
Lizbeth Kossmann: Se era bom em matemática.
Lídia: Era uma coisa que eu acho matemática e que boa é o principal, né?
Lizbeth Kossmann: Eu era profe. História dele e embora minha formação não seja história de filosofia ou de filosofia, minha raiz é filosofia e filosofia. Mas tá, foto não te preocupa, tá? A gente a gente quer só fazer o registro.
Lídia: Sim, sim. Mas aí ficamos nós os dois junto. Quem sabe tu também Pode ser, Pode ser que.
Lizbeth Kossmann: Pode ser, tem ganhada.
Lídia: Eu faço. Faz uma venda boa e dividir eu deixo, eu deixo. Aí eu fui lá na quinta vez.
Lizbeth Kossmann: Aí, mas eu ti sou muito elegante, muito bonito. Eu falei pra Luana assim Eu não sei se eu tenho roupa pra ir ver a gente, porque é muito chique, muito elegante. Ela disse que ela disse assim pra mim não, ela é super de boa. Eu disse não goste ela muito chique.
Lídia: Mas com o povo que não me conhecia.
Lizbeth Kossmann: Não nasci na tua voz, no teu jeito de falar. A gente já sabe, né? Se isso é uma coisa que quando a pessoa fala não.
Lídia: Eu não maior, portanto, todos assunto maior. Quando eu cheguei lá chegamos. Eu tenho uma filha que mora em Caxias e aí tá, vamos passear em Caxias, tinha uns netinho pequeno aí, então vamos tá? Chegamos lá em casa em Gramado, a primeira coisa fomos entrando no salão onde tinha Papai Noel e tudo pras crianças e o Papai Noel olhou assim e fez assim pra mim. Eu lhe conheço, não acredito.
Lizbeth Kossmann: Eu digo.
Lídia: Não é? Se enganou meu neném cármica. Ele disse Eu lhe conheço não, mas não é. Eu sei, não me conhece, mas eu achava. Mora em Canoas. Mas eu conheço o senhor já pai do meu senhor. E de lá eu disse Sim, o senhor é de lá. Ele disse não, a senhora canta aqui. Como fazia propaganda, eu fazia. E lojas de roupas?
Lizbeth Kossmann: Ah, esse é o senhor era.
Lídia: Sabe?
Lizbeth Kossmann: Dentro é tipo marketing, não é?
Lídia: Mas então e ele disse assim Eu conheci, não é das rochas. Eu uso essa coisa que a gente quer assim. Ah, eu me conheci quando a senhora fez o Natal da criança, que abriu nova loja Passar Natal. Ela estava lá, abriu novo mercado aqui em São Leopoldo.
Lizbeth Kossmann: Ah, tá, tá, eu sei, eu também não lembro. Tá bem? Meu memória é.
Lídia: Então, eu fiz lá em Caxias, no Natal, fizemos o Dia das Mães.
Lizbeth Kossmann: Então tinha mais gente.
Lídia: Não, não, não era. Era maior lá de Porto Alegre. E aí eles nos matavam. Esse carinho, essa.
Lizbeth Kossmann: É atualmente que mora onde.
Lídia: Atualmente nós somos Ferreira.
Lizbeth Kossmann: Ai eu tô querendo me mudar, porque onde a gente mora ali, né? Gabriel não, ele mora perto de mim. Rafaela Gouveia.
Lídia: Aonde A.
Lizbeth Kossmann: Fátima e o Branco?
Lídia: Ele a Fátima em Rio Branco, Meu marido era de Rio Branco.
Lizbeth Kossmann: Ai tá triste a coisa.
Lídia: Quando a gente namorava ele chegava de Barbie até a porta, depois ele.
Lizbeth Kossmann: Tá. Quando começa o tempo assim você começa a dar uma força.
Lídia: Ai começa a dar um.
Lizbeth Kossmann: Passo. Então eu disse poderia, eu tenho saudade Quando a gente não ficava olhando pro céu por água da chuva.
Lídia: E agora todo mundo treme.
Lizbeth Kossmann: Né? E eu queria vir pra esse lado, é uma molecada ir lá ver, mas chega, aí já paga, né? Já paga financiamento, aluguel pra cá.
Lídia: E esse lado até aqui tá ótimo, né? Eu moro bem perto também, perto da BR tem uma padaria Isabela em frente, prédio da Inconfidência, Inconfidência, Inconfidência, Ana Santos Ferreira.
Lizbeth Kossmann: Nós estamos ferrados e bem. Pra minha filha mora essa que pra minha filha tinha que ser um condomínio pra ela brincar, que tem pracinha que tem.
Lídia: Isso aí.
Lizbeth Kossmann: Que o Adelino foi morar no Centro, mas por causa de trabalho, imagina pra onde? Quem quer pode falar ele quer no centro de Porto a Ali não tem como ter criança, entendeu? Imagina a loucura uma criança presa dentro da fortaleza. Mas aqui os as três empresas deles são ali, sabe? Viaduto Otávio Rocha lá em cima, lá com o único que tem no mundo aquele reduto. Agora ele é o permissionário ali, é ele que está administrando aqui. Ele sabe em baixo, ali que tem umas lojinhas. Antes eram seis, agora eles estão formando aqui dentro e aí ele tem que estar sempre lá. E daí às vezes ele leva 01h00 de carro, ele tem vontade. Até nós estamos tentando chegar no meio termo.
Lídia: Aí tem que ir, tem que pensar bem antes de resolver isso aí tem filhos? Eu tenho duas, duas filhas lindas e quatro netos lindos, maravilhosos.
Lizbeth Kossmann: Onde é que elas moram? Aqui também.
Lídia: Uma mora em Caxias e a outra em Campinas, São Paulo.
Lizbeth Kossmann: Que foi pra longe.
Lídia: Deixa ela recém chegado em Campinas. Aí eu fui pra Caxias, aí as neta, uma médica já e a outra lá de Campinas, psicóloga Ai que se os dois gêmeos tinham um casal, a coisa mais linda, lindo, veio de uma amiga minha. Eles foram de férias pra Disney. Ai que bonitinho! Eles fizeram 15 anos e aí não quiseram. A Valentina ainda queria fazer uma festa de 15 anos e o negócio vai ser assim. Bem capaz que eu vou entrar numa festinha de 15, Eu vou contigo lá, Eu não quero essas coisas desse.
Lizbeth Kossmann: Aprendizado, eu não faço mais.
Lídia: Não. E ele é tímido, sabe? Então não. E aí eles quiseram optar por uma viagem aí. Ai meu genro disse Sim, tudo bem, tá escutando tudo.
Lizbeth Kossmann: Mas a gente vai.
Lídia: Tá.
Lizbeth Kossmann: E isso aqui, deixa eu explicar. A gente vai pegar esse áudio e vai pegar só as coisas centrais.
Lídia: As.
Lizbeth Kossmann: Centrais. Eu só não quero ficar parando e voltando com isso. Não. Eu tenho medo de perder alguma coisa e isso de fazer umas perguntas pra quantos anos tu tinha quando tu veio pra cá? Então, isso aí.
Lídia: É que nem eu disse era de cola e sim uns dois aninhos.
Lizbeth Kossmann: Tu praticamente nasceu aqui então né? Não nasceu lá. Mas o que eu quero dizer? Que as tuas lembranças.
Lídia: As minhas lembranças, eu não entendi. Eu não tenho de lá porque eu vim aqui e mesmo assim. Então as minhas lembranças são daqui.
Lizbeth Kossmann: Porque é isso que.
Lídia: A gente precisa. Essa. Esse canal hoje não era nada mais nada. Era o mato cerrado da nossa casa, ali da igreja também da comunidade, de toda hipótese. Tinha que andar uma parte assim pra trabalhar, um pecado. Ali, naquele outro ai, bem no final, onde tinha começado a trabalhar e começaram fazer garagens e coisas assim. E era o pai que.
Lizbeth Kossmann: Começou tudo ali no Santo Inácio, na estação.
Lídia: Na estação. Era muito, muito pouco em volta. Ali onde eu moro era mato. Não tinha.
Lizbeth Kossmann: Também quase.
Orador 3: Muito bem.
Lídia: Nessa.
Orador 3: Igreja.
Lídia: Que é mato, mato, porque até pra chegar na igreja depois chovia, alagava tudo. Olha cara.
Lizbeth Kossmann: Pois é, não é de agora, Então usa alagamento, né?
Lídia: Hoje é aqui. Eu acho que não tinha drenagem não.
Lizbeth Kossmann: Pra onde também tem que.
Lídia: Não ter garagem. Então era assim, era pra vir pro centro. Andei muito caminhar até três quilómetros e meio.
Lizbeth Kossmann: Deus não tinha um bus, tinha só várias pessoas de graça.
Lídia: Não tinha.
Lizbeth Kossmann: Onde o aquele que agora é fechado, né? Ele era aberto.
Lídia: Como.
Lizbeth Kossmann: Eu era, sabe esse centro aqui?
Lídia: Aí agora eu não me lembro agora, mas.
Lizbeth Kossmann: É chegou aí, era criança ali no parque sim, e.
Lídia: Vinha.
Lizbeth Kossmann: E era mais a frente.
Lídia: E era a praia, né? Aquela alegria, boa criançada, tudo ali era praia de canoa de Paquetá. Agora eu nem sei como é que está.
Lizbeth Kossmann: Aqui do lado. Diz o seu Ailton que é o Denilson, que é o presidente da associação, que é muito diferente da fama ruim. Tem que ser muito, entendeu? Assim como as pessoas mais populares, mais ou menos ainda começar a me falar, o pessoal classe média começou Ah, eu acho rico isso. Começou a achar não é só que tem de ser assim. Tem momentos que são balneários que dá pra entrar e os peixes são delicioso. E daí eu disse tá, mas não é poluída. Aí eu respeito Quem é pescador. Sabe quando o peixe tá poluído, a cor do peixe, o olho que muda também e eles tem todo uma vigilância sanitária, Mas é preconceito. Então ali virou uma, deveria ser um lugar ainda assim, que nem era na tua infância, né?
Lídia: Pois é, aqui na era maravilhoso. Sinceramente, a gente é assim. Meu Deus do céu, que maravilha isso aí. Tudo era calmo e muita gente, porque todo mundo era a única coisa que tinha.
Lizbeth Kossmann: No trem de lá pra cá e podiam investir mais.
Lídia: A coisa podia ter tido mais cuidado e. Mas é que não sei o que quer que acontece, o que.
Lizbeth Kossmann: As pessoas querem, que tem a gente aqui pro turismo, mas não investe.
Lídia: Não investe.
Lizbeth Kossmann: Já que nem eu fui ali, sabia? Tem mais um mosaico ali numa praça, a Praça do Horto, pois eu mostro pra vocês E o mosaico como um artista fez ou quebrou as pedrinhas, sabe? Mas mais ainda abandonado, abandonado?
Lídia: Que crime! A assim.
Lizbeth Kossmann: Que é o tipo de coisa que se preserva e dá outra cara pra.
Lídia: Gente.
Lizbeth Kossmann: Deixa eu te perguntar também então assim tu te lembra do Paquetá? Te lembra que era tudo mato, né?
Lídia: E daí da questão da comida?
Lizbeth Kossmann: Vocês são uma comunidade específica, né? Então vocês comeu na Itália também? Uma cachaça lá, né?
Lídia: E convida, convida e aplaude.
Lizbeth Kossmann: E lá você vai comer. Elas me deram e eu disse não gente, eu não bebo e tal, né? Agora a Holanda.
Orador 3: Me ofereceu.
Lizbeth Kossmann: Tu tomou uma vez, eu peguei também, vai.
Lídia: Tu pode ir junto.
Lizbeth Kossmann: Não foi no outro.
Lídia: Dia, mas.
Orador 3: Um dia.
Lizbeth Kossmann: Acho que um festival, o Festival.
Lídia: Festival a tarde.
Lizbeth Kossmann: E daí eu disse não, não cheguei. Aí tomei um golinho. Sabe quando o calor sobe assim?
Lídia: Ai ele aquece todo.
Lizbeth Kossmann: E tem pimenta.
Lídia: E aqui eu tô.
Lizbeth Kossmann: Eu disse Eu tomo isso aqui, você não tem que ir. Ali, Mas fazer um negócio com repolho, como é que é o nome desse ramo?
Lídia: Falou Puxa.
Orador 3: É muito bom.
Lizbeth Kossmann: É bom esse.
Lídia: De nós, Borges, tirar.
Orador 3: Proveito de.
Lizbeth Kossmann: Tudo. É aquele pastelzinho, o pastelzinho.
Lídia: Filhos que também tem bigode e assim nos pauzinho, né não Tinha também Aí até então eu tava em Caxias com isso que eu não estou.
Lizbeth Kossmann: Pra vocês, que vai junto cozinhar ali.
Lídia: Mas eu sei como é que é aquilo.
Lizbeth Kossmann: Né? Mas também não dá pra dizer olha só como é a pele boa. Tudo! Ó meu Deus.
Lídia: Que pena que tu queria que eu tivesse aqui, quando.
Lizbeth Kossmann: Não vocês tem gente, eu tô.
Lídia: Até tu.
Lizbeth Kossmann: A minha mãe é uma mãe, tem 65 e ela tá muito bem assim, sabe? Dá pra ver que ela envelheceu mais do que o normal.
Lídia: Isso. Mas que eu tô já com 28 que tu quer 20 anos. Aí eu tava com 18. Eu tava tão feliz aí de um dia pro outro e minha filha agora 28, Nada de 18.
Lizbeth Kossmann: Só inverter, né? Velhinha? Se eu te dizer então fala aqui, tu se lembra então essa comunidade específica? Mas além disso, tu lembra assim, por exemplo, se tinha comércio ali perto de vocês, tinha gente que entregava leite, pão tinha.
Lídia: Tinha, Tinha vaquinha que andava fazendo vaquinha. Era uma caminhonete 1000 de leite ali, né? E aí eles vinham com aquilo tudo, porque a estrada tá chegando perto e todo mundo pegava o cara, diziam já ia pra cima. Eu era a primeira, né? Até o tinha.
Lizbeth Kossmann: O Seu Antônio do rapaz aqui disse que ele mesmo chegava com o carro velho dele e também linguiça que ele fazia e ele ele passava o que aqui pra.
Lídia: Ti fazia? Eu fazia, era tudo assim. E ai verdura, olha que esse povo é trabalhava, meu Deus.
Lizbeth Kossmann: Tinha aquelas hortas, sabe? Assim.
Lídia: Na casa de cada um, no terreno cada um tinha o seu, cada um trabalhavam fora, vinham tarde e davam terra. No outro dia já a gente estava melhor nos canteiros, semeavam, plantavam. Era tudo da horta não tinha esse mercado.
Lizbeth Kossmann: Mercado.
Lídia: Pra vender. Agora só tinha na esquina. A gente morava numa esquina e na outra esquina tinha o seu Jacó. Ai a Jacó veio dormir e aí então eles também eram alemães, a gente ali era. Já começaram a fazer plantação aqui, mas da onde vinha aquela que ele vendia lá na não sei da onde.
Lizbeth Kossmann: Deve ser que nesse outro.
Lídia: Matava o bicho e fazia a verdade, mas a gente era que chegava ali e batia palma e vende agora muito, queria muita criação, dai vinho e o povo tudo isso tinha, matavam fome, faziam.
Lizbeth Kossmann: Era tipo o interior, uma.
Lídia: Colonização assim, eles tinham uma colônia inteira, sabe, num lugar só.
Lizbeth Kossmann: E foi organizando, urbanizar, organizando.
Lídia: Foi assim.
Lizbeth Kossmann: Até que era bonita, a paisagem.
Lídia: Era era bonita. O lado de lá, onde é o agora? Como é que é o nome daquele bairro industrial lá? E tem mais um nome lá que colocaram agora mudaram. Não sei o nome.
Lizbeth Kossmann: Mas vocês dão aqui e ali. Fátima virou assim, com um condomínio atrás do outro.
Lídia: E ali condomínios tem mais pra aquele lado do vale ainda. Por isso.
Lizbeth Kossmann: Cereal.
Lídia: Industrial Ali é que era tudo assim, uma colônia, plantação de arroz já tinha, já tinha. Foram plantando aqui e ali, a gente também ia buscar e era só. E eu ainda ia buscar cara com essas coisas, rua, buscar. Eu ia buscar lá no frigorífico e lá no frigorífico aonde nós moramos. Nós morávamos na Rua Itália.
Lizbeth Kossmann: Niterói.
Lídia: Niterói. Era bem lá pra baixo e a mãe trabalhava no frigorífico. 05h00 ela pegava o serviço. A cidade. Aí o pai levava ela de carroça, já tinha acabado. Ele estava ficando e eu ficava ali. Muito que eu busquei carro, os cavalos ali no e tudo.
Lizbeth Kossmann: Conduzia ali.
Lídia: Naquela hora. Claro que tu acha teu pai que já tinha uma carroça teu ai nascendo aqui.
Lizbeth Kossmann: Tu lembras daqueles carros? Primeiro carro pretinho, aquele eu acho tão bonitinho.
Lídia: Eu me lembro do como é que é gordinho.
Lizbeth Kossmann: Isso hoje de.
Lídia: Depois da última vez que. A gente saía, cabia quatro assim. Mas essa coisinha a gente aqui assim sabe. De repente parava a carro que gostava de encrenca, olhava para eles. Não ficou muito tempo com aquilo. Aí ele pegou no mercado. Aí era uma coisa grande. Está um absurdo aquele.
Orador 3: Grandão.
Lídia: Mas aquele não deixava não, porque.
Lizbeth Kossmann: O que vocês cozinhavam no final de semana?
Lídia: Domingo, domingo, pós?
Lizbeth Kossmann: Ah, vocês é a questão. Mas as coisas mais abrasileirada de.
Lídia: Safra de federadas se fazia. Vejam, não achavam muito feijão preto que era raridade. Olha, mas se o feijão branco tinha olho azul e o feijão branco na Europa, e o que eles comiam? Não tinha feijão preto no mesmo feijão pra cá. E aí era o feijão branco. Aí fazia nunca.
Lizbeth Kossmann: Ninguém que fosse mais branco.
Lídia: E isso.
Lizbeth Kossmann: É difícil.
Lídia: Eu nem gosto, sabe? Eu não gosto muito de feijão. Eu quando faço, mostro, eu faço, mas já não boto sem sócio. Quando as filha veem, elas gostam, então aí eu faço. Mas se eu não posso ver agora feijão, arroz, carne, ovo estrelado, isso aí eu ia pra comer comida assim. Agora.
Lizbeth Kossmann: Se o churrasco era uma coisa às vezes escassa assim.
Lídia: Mas gente, agora, agora é só churrasco mesmo. Mas eu digo assim é muito legal a gastronomia ucraniana, porque ela é muito divertida de sim.
Lizbeth Kossmann: Sabe se lá, é saudável, é saudável, coisa saudável.
Lídia: Então é isso aí. Já qual defendia bem.
Lizbeth Kossmann: E tu sente saudade dessa época de infância.
Lídia: Daqui da Bahia? Tenho lembrada com tanto, tanto, tanto. Você não imagina porque sabe, enquanto a gente tem casa, está criando os filhos e tudo e outra vida, né? Parece aquela lá.
Lizbeth Kossmann: Ficou pra lá, ficou.
Lídia: Mas aí quando tu fica sozinha, a gente começa aos programinhas como o seguinte Que mais? Que tempo maravilhoso, gente! Aqui melancolia a que tem que estudar tudo, né? Eu estudei muito no Colégio das Freiras São Paulo. [inaudível].
Lizbeth Kossmann: Aqui em Canoas.
Lídia: Então se.
Lizbeth Kossmann: Não chego lá, eu gostaria Antigo já.
Lídia: Né? Mas ainda não tinha. Tinha esse canote de relógio, Até hoje.
Lizbeth Kossmann: Eu tenho 17.
Lídia: Então fica vem aquelas de ai eu, aí eu fiz a língua ucraniana, nossa, eu falei em ucraniano, em português, comecei a caprichar e quando chegava aqui eu já estava Dona Ester moça. Ai já depois de casadas chegavam.
Lizbeth Kossmann: Lá.
Lídia: O cônsul da Ucrânia, coisa pra negociarem aqui e nesse meu processo.
Lizbeth Kossmann: Foi tipo uma interlocutória.
Lídia: Né? Aí eu era uma escritora em todos eles, porque a maioria não conseguia se entender em craniano em português, sabe? Não entendia. É traduzir. E aí eu ia. E o pai da Lena não faz da maneira. Também não era muito. Aí nós éramos compadres e aí ele lá vem, vão encontrar os cara, vai muito no aeroporto. Então você tem essas coisas.
Lizbeth Kossmann: Assim, né?
Lídia: Aí a matriz, a carta é Paraná, né? Elas vêm bonitinho. Curitiba ai, aquele período todo teu, vamos dizer assim, até 90 e então eu sempre andava aqui viajando e indo com eles e resolvendo coisa de igreja, coisa de sociedade. E o pai da mãe, mas também ela não, ela estava estudando ciências lá.
Lizbeth Kossmann: Então vocês são bem intelectualizados.
Lídia: Assim.
Lizbeth Kossmann: Né? Bem, a gente inteligente.
Lídia: A gente está sempre tentando, sabe? Não é permanência aqui. Apesar que a minha filha uma casou com gringo, a outra casou com Verbal, mas eles me chamam.
Lizbeth Kossmann: De Baba.
Lídia: Baba. O que é.
Lizbeth Kossmann: Vovó?
Lídia: Vovó? Então, os netos.
Lizbeth Kossmann: Eu não tenho o feminino masculino pra baba, né? Baba não tem masculino e feminino é baba.
Lídia: Não, não.
Lizbeth Kossmann: Tem.
Lídia: Tem é de.
Lizbeth Kossmann: Porque infelizmente passou um ouvido do potinho de creme.
Lídia: Ai tu assistiu?
Lizbeth Kossmann: Não, não é o que aconteceu. Passa aí essa aí. Então tu não passou na minha timeline? E aí o pessoal estava chamando ele de babá. E daí ele disse Por que vocês estão falando, pai? Bem que porque ele é um ditador. E acamparam ainda, daí as gurias dele. Daí elas não. Não é que as crianças na escola falam batata quando é bom? Aí eu pensei ah, não é.
Lídia: Dieta a fome, a dieta é a mulher, é a baba, é ucraniana, é de baba, É sim a baba, é o.
Lizbeth Kossmann: Até não deve ter visto o vídeo porque senão começa a mandar, né? De raiva, de choro.
Lídia: Ai pelo amor de Deus, pra quê o pai isso? Mas se é porque é Ucrânia primeiro de tudo.
Orador 3: De cultura também.
Lídia: Aí depois que eles foram crescendo.
Lizbeth Kossmann: Tu foste quantas vezes assim, depois não foi, não.
Lídia: Foi não foi que quando nós estávamos se preparando, primeiro por causa da faculdade, já vem o neto, né? Então a gente se segurou um pouco e depois o marido faleceu. Ele não tem nada mais. Eu digo chega e tem.
Lizbeth Kossmann: Não é aquela questão da guerra também.
Lídia: Assim é a guerra. Então foi. Mas a gente tava programando, ia pra Australia, pra lá, para a Ucrânia, pra Polônia, que tinha a medicina. Polônia, que é uma terra muito linda também. E esse ano eu me arrepiei e falei não.
Lizbeth Kossmann: Infelizmente eu fui em Auschwitz, na Polônia.
Lídia: Na Polônia.
Lizbeth Kossmann: E eu tive lá aquilo e fiz o roteiro pras minhas amigas. Mas era um negócio que eu não queria ter ido de novo. Eu não iria de novo. Eu quero Era um banquete assim. Resto é muito ruim, muito ruim.
Orador 3: Vai de curiosidade uma vez na vida.
Lizbeth Kossmann: Não, não. Eu não queria voltar. Então a gente teve sim alguns pontos e que todo mundo sempre disse tem lá. E eu não sei porque tem essa coisa.
Lídia: Querem conhecer, sabem um pouco da história e querem conhecer o lugar e tudo o resto. Mas eu também não gosto.
Lizbeth Kossmann: Não gosto, sofrimento. E eu também não gosto.
Lídia: De lealdade dura, cruel.
Lizbeth Kossmann: E foi um período que vocês viveram ali, né não?
Lídia: Vocês especificamente eu Eu praticamente só fui contado, né? Mas foi muito bonito, muito bom.
Lizbeth Kossmann: Não me perguntem. Tu quer tirar uma foto dela? Olha, pode ser que quer ficar assim sentadinho. A gente vai lá. Não, não precisa sei lá o quê. Ela tá. Olha só que legal.
Lídia: Eu podia voltar.
Lizbeth Kossmann: Eu te mando, depois.
Lídia: Falo. Eu troquei.
Lizbeth Kossmann: Ai que bonito!
Lídia: Ele vai descobrir agora minha idade. Ele tipo, vem direto, de longe, não.
Orador 3: Aparece mais.
Lídia: As fotos.
Lizbeth Kossmann: Dela, dá tempo.
Lídia: É só que tempo agora você vai me mandar?
Lizbeth Kossmann: Claro, antes e daí também manda que eu mando pra ela pra fazer a entrevista também. E a matéria eu te mando. Aí já é uma coisa que não deu. Junia, Respeito em primeiro.
Lídia: Lugar. Aí eu gostei de ti. Eu também não sei.
Lizbeth Kossmann: Se eu fiz muitas amigas e a Alana virou minha amiga também sou. Aí eu tenho a Rúbia, acho que as da Alemanha também. A gente, ela já diz eu já é querida, porque tu não me ligou? Porque eu toquei pras outras.
Lídia: Muita coisa, né, Gabriel? Quem é quem? Quem é que tava lá no salão agora, né?
Lizbeth Kossmann: Você tinha uma outra senhora que também era mais madura. Eu esqueci o nome dela.
Lídia: Seria uma figura, a Maria Emília. A minha comadre.
Lizbeth Kossmann: Era uma figura. A gente também.
Lídia: Figura, a minha comadre. Então ela é quando me ver já passou foto pra mim é tudo, né?
Lizbeth Kossmann: E ela a gente conversou bastante, eu fiquei, eu me atrasei nesse dia, eu cheguei e pedi desculpa. Eu não fiquei tranquila porque a gente já ia fazer, né? Ela já tem uma rotina ali, né gente? Aí botei minha toquinha.
Lídia: Conversei, então vocês viram fabricando.
Lizbeth Kossmann: Sabe, Acampar.
Lídia: E.
Lizbeth Kossmann: Tirei foto daquele povinho, coisa mais linda que eu esqueci o nome, mas todo decorado.
Lídia: Sim.
Lizbeth Kossmann: Tinha de madeira, tinha.
Lídia: Ovo, assim tem aqueles que acharam tudo arrumadinho.
Lizbeth Kossmann: Eu amei os pratos, não comi coisa.
Lídia: Mais. Olha, olha que cultura bonita podia servir a gente daquele país. Por isso eu digo não, não é possível. E agora Curitiba faz tudo isso aí. É um monte de São Paulo, mas se tiver uma, manda lá em São Paulo, nós vimos lá. Era a Fábrica Cinema, taças de bandeja, tudo o que era coisa lindíssima do mundo, todo pintado com um programinha.
Lizbeth Kossmann: Artesanal.
Lídia: E artesanal. E o que é que vocês acham da vestimenta? Eu achei.
Orador 3: Linda.
Lizbeth Kossmann: Tu viu? Eu não cheguei a ver nesse dia não.
Lídia: Colorido, então eu me arrumo pra ti, tá.
Lizbeth Kossmann: Aí, já tira uma foto. Mas eu sei que tem bastante.
Lídia: Detalhe por detalhe. Todo bordado colorido também, todo vermelho assim lá em Prudentópolis, assistindo onde? Não, não chega. Que pena, Que pena. Eu também não fui porque eu tinha o meu aniversário para o dia que eu passei pra gente oito, né? E aí eu fiquei lá em Caxias, meu bem. Então perdi meu cantinho mais aí a filha vendo esse troço ali, eu fiquei quase um mês lá em Campinas e agora aqui nem meu aniversário não chegar não dá. Não, não vai tiver caminhão, Mas é uma turma muito boa, muito amiga, querida.
Lizbeth Kossmann: Sabe esse tipo de Canoas? Assim que eu queria te perguntar.
Lídia: Uma pergunta mais.
Lizbeth Kossmann: Eu sei o material que a gente quer é um material que seja útil pra história dessas Canoas né? E é que é uma coisa muito, muito útil, muito relevante, muito humana.
Lídia: Não é muito.
Lizbeth Kossmann: Relevante, não Muito, muito. Acho que é uma das melhores entrevista que a gente fez, né? De Canoas. Então, assim que tu lembra. Então era isso, uma questão mais ou fazendas eram as pessoas faziam em.
Lídia: Casa, criatura? Não tinha. Tinha era que desse pedregulho nas rua. Pedregulho grandão. Ai eu tinha que ir lá pra escola né?
Lizbeth Kossmann: Onde é que estudava?
Lídia: No São Paulo? Colégio de freiras.
Lizbeth Kossmann: Não tem mais. Tem outro.
Lídia: Nome? Tem. Mas eu acho que o que que eu saiba. E aí, como é que tu ia? Tinha até banquinho, né? Ganhei tamanco de novo. Aí eu fui pra escola, eu saí a primeira rua que a primeira rua que eu dobrava tirava, essa máquina estava aqui para não gastar o tal Mandinho. A criatura desse post, meus colegas, são chegava perto da escola, fosse aqui de novo entrando. Ai eu lembrei que eu tivesse bares.
Lizbeth Kossmann: E restaurante, tinha no centro sem nada.
Lídia: Pra cá que eu conhecia, não, porque depois eu vinha com o pai e nós entregava. Ele trabalhou com madeira, né? Então entregava móveis, coisas, sei lá, pra pra Dita Barreto, que era a Casa Brasília era uma casa. Brasília é um bazar pra lá. A gente entregava colchões porque aí já começou a tocar.
Lizbeth Kossmann: Então, tipo, não tinha cinco lugares?
Lídia: Tinha, não tinha, não assim, embora talvez um lugar muito bem escondidinho lá sei onde o mais correto, mas era, era tudo mais assim.
Lizbeth Kossmann: Sabe que realidades diferentes.
Lídia: Junta bota isso aqui é o paraíso. Agora, perante o que era, era só mais mato.
Lizbeth Kossmann: E foi então assim que tu te lembras. Sim, vai pra cima. Era cheio.
Lídia: Tinha bastante. Eu não, Agora só tirou foto.
Lizbeth Kossmann: Pode ir meu amor, vc vai lá.
Lídia: Tu não tira foto dela, Deus quer tirar, mas você quer ser, quer vai levando em cima ai.