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Quando o Xis virou Lei

Quando o Xis virou Lei

Em Canoas, o lanche que saiu dos trailers e das chapas de bairro virou lei, disputa simbólica e pista para entender a memória gastronômica local.

Nem todo patrimônio gastronômico nasce em louça de porcelana, toalha engomada ou receita guardada em caderno de família. Às vezes ele aparece embrulhado em papel, pesado na mão, prensado na chapa e dividido entre duas pessoas com mais fome do que cerimônia. Em Canoas, o xis talvez seja exatamente isso: um prato cotidiano que, por ser comum demais, corre o risco de passar despercebido.

O xis de Canoas é maior porque foi sendo montado sobre uma cidade industrial, atravessada por rodovias, turnos de trabalho, deslocamentos e pequenos negócios familiares.

Foi olhando para essa normalidade que César Augusto Ribas Moreira, então vereador de Canoas, propôs uma lei para reconhecer o município como “Cidade Referência do Típico Xis Gaúcho”. A Lei nº 5.990, sancionada em 2016, também criou o Dia do Xis, comemorado em 28 de maio, mesma data em que parte do mundo celebra o Dia do Hambúrguer. A escolha não foi acidental. Onde outros viam apenas um lanche, Moreira enxergava economia, trabalho, tradição familiar e uma espécie de cartão de visita informal da cidade.

A conversa com César Moreira ajuda a recolocar o xis em seu devido tamanho. Não apenas o tamanho físico, que já é assunto suficiente para separar o xis gaúcho do hambúrguer americano, mas o tamanho simbólico. O xis de Canoas é maior porque foi sendo montado sobre uma cidade industrial, atravessada por rodovias, turnos de trabalho, deslocamentos e pequenos negócios familiares. Uma cidade onde comer rápido nunca significou, necessariamente, comer sem história. Segundo Moreira, a cultura do xis em Canoas remonta às décadas de expansão industrial, especialmente a partir dos anos 1960. Próximos a grandes fábricas, oficinas, vias de passagem e áreas de circulação intensa, pequenos trailers e lancherias começaram a atender trabalhadores, estudantes, famílias e gente que saía tarde do expediente. O Romani, lembrado por ele na região da BR-116 com a Inconfidência, aparece como um desses marcos de memória. Não como peça de museu, mas como ponto de referência afetiva: todo mundo conhece alguém que comeu ali, passou ali, ouviu falar dali.

Esse é um tipo de história difícil de documentar. Ela não costuma estar nos arquivos oficiais ou nas fotografias de inauguração. Está nas noites de domingo, nos pedidos anotados à mão, nas chapas acesas, nos potes de maionese, no pão grande, na carne, no ovo, no milho, na ervilha, no queijo derretido e nas pequenas variações que cada casa defende como se fossem cláusulas de uma constituição secreta. O xis, em Canoas, talvez seja menos uma receita única e mais um idioma compartilhado. Quando Moreira apresentou o projeto, a proposta recebeu críticas. Houve quem perguntasse se a cidade não tinha temas mais importantes para discutir. A resposta, vista com alguma distância, revela uma tensão frequente quando se fala em cultura alimentar: a dificuldade de reconhecer valor político e econômico no que é popular. Um prato pode parecer simples demais para entrar na pauta pública, até que se olha para a rede que existe atrás dele.

No levantamento citado por Moreira, realizado entre 2015 e 2016, Canoas teria cerca de 452 CNPJs ligados ao setor de lanches rápidos, reunindo aproximadamente 2 mil profissionais. O número, ainda que precise de atualização, indica uma cadeia robusta. Atrás de cada xis há padeiros, açougues, fornecedores de hortifrúti, distribuidores de bebidas, entregadores, profissionais de limpeza, manutenção de equipamentos, gráficas, contadores, motoboys, atendentes, chapeiros e famílias inteiras que construíram patrimônio em cima de uma operação aparentemente pequena. É por isso que exemplos como Rapach, X-Rei, Romani e X do Gringo aparecem na conversa não apenas como nomes de estabelecimentos, mas como capítulos de uma história econômica local. Muitos começaram pequenos, em trailers ou estruturas modestas, e se consolidaram como empresas reconhecidas. Em alguns casos, atravessaram décadas. Em outros, mudaram de endereço, de geração, de cardápio ou de escala. O ponto comum é que ajudaram a transformar o lanche em uma marca de cidade.

A lei também previa um Festival do Xis. Segundo Moreira, apenas uma edição chegou a acontecer, no primeiro ano, em um shopping da cidade. Depois, a iniciativa não teve continuidade por falta de verba ou sustentação política. A interrupção diz muito sobre o desafio de transformar um gesto simbólico em política cultural permanente. Criar uma data é relativamente simples. Manter um calendário, mobilizar empreendedores, atrair público, organizar programação e gerar turismo exige uma engrenagem bem mais complexa. Ainda assim, o Dia do Xis sobreviveu de outro jeito. Não necessariamente como grande evento oficial, mas como lembrança recorrente no comércio e na imprensa local. A cada 28 de maio, lancherias, mercados e perfis de gastronomia retomam o assunto. O xis reaparece como promoção, brincadeira, orgulho bairrista e provocação. Em Canoas, até quem discorda da lei acaba participando da conversa que ela criou.

Há também uma rivalidade simpática com Santa Maria, cidade que há anos reivindica para si o título de capital do xis. Moreira trata a disputa como uma brincadeira saudável, dessas que ajudam mais do que atrapalham. Santa Maria tem sua própria tradição, seus endereços famosos, sua narrativa. Canoas, por sua vez, sustenta o argumento da quantidade de negócios, da força econômica do setor e da formalização por lei municipal. No fundo, a disputa talvez revele algo maior: o xis já é um prato suficientemente importante no Rio Grande do Sul para que mais de uma cidade queira chamá-lo de seu.

A busca por um reconhecimento mais amplo, estadual ou nacional, chegou a ser cogitada, mas não avançou. Moreira lembra que isso exigiria articulação política em outras esferas, com deputados e instituições capazes de sustentar a pauta. Cita exemplos de cidades associadas a produtos específicos, como Caxias do Sul e a uva, ou Nova Santa Rita e o melão. O xis de Canoas poderia entrar nessa constelação de identidades alimentares, mas para isso precisaria de algo além de orgulho local: documentação, pesquisa, critérios, memória oral e continuidade.

É justamente nesse ponto que o trabalho do projeto Canoas, Memória Gastronômica encontra uma de suas razões de existir. A pergunta inicial, “Canoas é mesmo a cidade do xis?”, não precisa ser respondida com pressa. Talvez a melhor resposta não esteja em uma placa, nem em uma lei, nem em uma rivalidade com outro município. Talvez esteja no acúmulo de histórias que explicam por que tanta gente em Canoas reconhece o xis como parte da própria vida.

O xis não resume Canoas inteira. Nenhum prato conseguiria. A cidade também tem comunidades indígenas invisibilizadas, imigrações alemãs, italianas e ucranianas, comunidades pesqueiras, quilombos urbanos, padarias de bairro, festas familiares, bares antigos, restaurantes de passagem, cozinhas domésticas e merendas escolares. Mas o xis é uma boa porta de entrada porque encosta em muitas dessas camadas: trabalho, indústria, juventude, noite, família, comércio, deslocamento, improviso e permanência. Talvez por isso ele seja tão canoense. Não por ter uma origem única, limpa e indiscutível, mas por carregar as marcas de uma cidade feita de cruzamentos. Entre Porto Alegre e o Vale dos Sinos. Entre fábrica e bairro. Entre estrada e mesa. Entre o hambúrguer importado e a invenção local que ganhou pão maior, recheio farto, chapa quente e nome próprio.

No fim, a lei de César Moreira pode ser lida menos como ponto final e mais como pista. Ela não encerra a discussão sobre o xis. Ao contrário, abre a chapa. Convida a cidade a olhar para um alimento cotidiano com a seriedade que normalmente se reserva às coisas raras. Porque a memória gastronômica de um lugar nem sempre está no prato que se come uma vez por ano. Às vezes está justamente naquele que se pede sem pensar, no balcão de sempre, com a naturalidade de quem acredita que aquilo sempre esteve ali. ▉

Sobre o autor

Adelino Bilhalva

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