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O fotógrafo canoense e estudante de jornalismo Gabriel Teixeira percorreu as estações da Trensurb na cidade e encontrou, entre passarelas e plataformas, pequenos comércios que há décadas alimentam a rotina de quem passa.

Fotos: Gabriel Teixeira.

Gabriel Teixeira já havia passado muitas vezes por aquelas bancas. Algumas ele conhecia, em outras já tinha comprado alguma coisa. Como acontece com quem repete diariamente o mesmo caminho, porém, elas faziam parte da paisagem sem necessariamente chamar atenção. Isso mudou quando o fotógrafo canoense e estudante de jornalismo percorreu as estações Mathias Velho, Canoas, Niterói e Fátima com a tarefa de fotografar e conversar com quem trabalha nos pequenos comércios ligados ao fluxo do trem. “Foi a primeira vez que eu realmente parei para reparar nas banquinhas”, contou depois da diária. “Eu nunca reparei em quem são as pessoas. Eu nunca procurei saber quanto tempo elas estão ali.” O que parecia uma pauta sobre lugares onde comprar um café, um pastel ou um pão de queijo acabou revelando uma pequena camada da história da cidade.

Pastéis expostos em uma banca próxima às estações da Trensurb em Canoas.
Pastéis expostos em uma das bancas encontradas durante o percurso pelas estações. Foto: Gabriel Teixeira.
Bancas e pequenos comércios no entorno da Trensurb em Canoas.
Bancas e pequenos comércios fazem parte do caminho cotidiano de quem utiliza a Trensurb em Canoas. Foto: Gabriel Teixeira.

O percurso pelas estações

Gabriel percorreu Mathias Velho, Canoas / La Salle, Fátima e Niterói / Uniritter.

Na Mathias Velho, essa história aparece principalmente em volta do pastel. O Sabor Supremo mantém duas bancas há mais de vinte anos na região da estação e prepara os pastéis conforme o pedido. O Quiosque do Nico está no mesmo ponto há aproximadamente 24 anos. Ao lado desses negócios aparecem outros mais recentes, como o Família Lanches, o Café da Estação e um pequeno quiosque vermelho instalado no alto da passarela, especializado em pão de queijo vendido, na época da visita, a um real a unidade. São estabelecimentos pensados para uma alimentação que precisa acompanhar a velocidade do passageiro: comida que pode ser preparada rapidamente, entregue pelo balcão e levada na mão até o trem.

Comércio no caminho dos passageiros da Estação Mathias Velho.
Comércios instalados no caminho diário dos passageiros da Mathias Velho. Foto: Gabriel Teixeira.
Balcão de banca de alimentos em Canoas.
O balcão como ponto de encontro entre a pressa do passageiro e a comida preparada na hora. Foto: Gabriel Teixeira.
Pequeno estabelecimento próximo aos acessos da Trensurb.
Pequenos estabelecimentos dividem espaço com o fluxo da passarela e dos acessos à estação. Foto: Gabriel Teixeira.

Foi no entorno da estação Canoas, porém, que as diferenças de idade começaram a surpreender Gabriel. O Lanche da Praça soma 42 anos na mesma praça, primeiro durante três décadas em um ponto e depois por mais doze anos no atual. O negócio começou com o pai da atual proprietária e passou para a filha, mantendo os pastéis e churros feitos na hora. Perto dali, o Quiosque da Bruxa está há cerca de 24 anos no mesmo local. O nome surgiu do apelido dado à dona pelas amigas e acabou incorporado à decoração do espaço. Gabriel conhecia a região, mas não conhecia a banca. “Eu não fazia ideia que existia e eu sempre passei várias vezes muito perto”, contou. O que chamou sua atenção não foi apenas encontrar um lugar novo, mas perceber que aquele lugar que era novo para ele já acumulava décadas de rotina para outras pessoas.

Quiosque da Bruxa, em Canoas.
O Quiosque da Bruxa está há cerca de 24 anos no mesmo ponto. O apelido da proprietária acabou virando também a identidade do estabelecimento. Foto: Gabriel Teixeira.
Detalhes do Quiosque da Bruxa.
Detalhes do Quiosque da Bruxa, um dos lugares que Gabriel descobriu apesar de já ter passado muitas vezes pela região. Foto: Gabriel Teixeira.
Comércio de passagem no Centro de Canoas.
O comércio de passagem se mistura à paisagem do Centro de Canoas. Foto: Gabriel Teixeira.
Balcões e vitrines próximos à Estação Canoas.
Balcões e vitrines atendem quem chega e quem parte pela estação central. Foto: Gabriel Teixeira.
Pães de queijo em comércio próximo à Estação Canoas.
Pão de queijo produzido em quantidade para acompanhar o ritmo de quem utiliza a estação. Foto: Gabriel Teixeira.

“Eu não fazia ideia que existia e eu sempre passei várias vezes muito perto.”

O mesmo contraste se repete entre negócios recentes e estabelecimentos atravessados por gerações. Dentro da estação Canoas, o Novo Sabor trabalha principalmente com pão de queijo e ocupava o ponto havia cerca de dois anos. Do lado de fora, ao fim da passarela, o Café Imperial carrega uma história familiar muito mais longa, estimada pelos responsáveis em cerca de oitenta anos de atuação no Centro de Canoas. Mais adiante, a La Deguster está há aproximadamente 24 anos em frente ao Paradão, reunindo confeitaria, sorvetes, pastéis e outros lanches. Para Gabriel, eram essas diferenças que tornavam a caminhada reveladora. “Tem bancas ali que, quando eu estava nascendo, as bancas já eram antigas”, disse. “Tem pessoas ali que a banca começou com a mãe, com o pai e continua hoje com os filhos.”

Café Imperial no Centro de Canoas.
O Café Imperial, ao final da passarela da Estação Canoas, pertence a uma história familiar que atravessa gerações. Foto: Gabriel Teixeira.
Movimento no entorno da Estação Canoas La Salle.
O movimento no entorno da Estação Canoas / La Salle, entre a Trensurb, o Paradão e o comércio do Centro. Foto: Gabriel Teixeira.
Vitrine de alimentos no Centro de Canoas.
Vitrines abastecidas para o consumo rápido de quem circula pela região central. Foto: Gabriel Teixeira.
Doces e salgados em estabelecimento próximo à estação.
Doces, salgados e outros lanches dividem espaço nos estabelecimentos próximos à estação. Foto: Gabriel Teixeira.
La Deguster, em frente ao Paradão de Canoas.
A La Deguster está há aproximadamente 24 anos em frente ao Paradão de Canoas. Foto: Gabriel Teixeira.

Conversar com os comerciantes nem sempre foi simples. Gabriel define a receptividade como “mais ou menos”. A câmera despertava alguma desconfiança, sobretudo entre quem estava havia menos tempo nos pontos e não estava acostumado a alguém aparecer fazendo perguntas sobre a história do negócio. Entre os comerciantes mais antigos, ele percebeu outra disposição. “Geralmente as pessoas mais simpáticas são as pessoas que estão há mais tempo, porque elas realmente estão ali porque gostam de estar ali. Faz parte do cotidiano delas.” Quando a conversa engrenava, o levantamento deixava de ser apenas fotográfico e começavam a aparecer histórias de família, mudanças de endereço e décadas passadas atrás do mesmo balcão.

“Geralmente as pessoas mais simpáticas são as pessoas que estão há mais tempo.”

Em Niterói, Gabriel registrou desde o pequeno comércio junto à estação até uma banca de cachorro-quente instalada há cerca de dez anos na descida e o Café da Zuka, que tinha apenas quatro meses quando foi visitado. No Fátima, a Mercearia Garibaldi acrescentou outra escala à viagem. Juarez e Lourdes, moradores antigos da região, mantêm há 35 anos um comércio abaixo da estação onde a alimentação já não se limita ao lanche de passagem. Há produtos coloniais e artesanais, cozinha, almoço e espaço para sentar. Entre uma estação e outra, o que começou como um levantamento de bancas mostrou diferentes maneiras pelas quais a comida se adapta ao tempo disponível de quem circula pela cidade.

Comércio junto à Estação Niterói Uniritter.
O comércio praticamente dentro da paisagem ferroviária da Estação Niterói / Uniritter. Foto: Gabriel Teixeira.
Ponto comercial nos acessos da Estação Niterói.
Pequenos pontos comerciais acompanham a descida e os acessos da estação. Foto: Gabriel Teixeira.
Lanches próximos à Estação Niterói.
Lanches preparados para quem entra e sai da Estação Niterói. Foto: Gabriel Teixeira.
Banca de cachorro-quente em Niterói, Canoas.
O cachorro-quente também aparece entre as comidas ligadas ao fluxo da estação. Foto: Gabriel Teixeira.
Comércio no entorno da Estação Niterói.
Comércio no entorno da Estação Niterói. Foto: Gabriel Teixeira.
Entorno da Estação Fátima em Canoas.
O entorno da Estação Fátima, última parada do percurso fotográfico. Foto: Gabriel Teixeira.
Mercearia Garibaldi abaixo da Estação Fátima.
A Mercearia Garibaldi funciona há 35 anos abaixo da Estação Fátima. Foto: Gabriel Teixeira.
Produtos da Mercearia Garibaldi.
Prateleiras e produtos da Mercearia Garibaldi, comércio mantido por Juarez e Lourdes. Foto: Gabriel Teixeira.
Mesas sob a estrutura da Estação Fátima.
Mesas sob a estrutura da estação: em Fátima, além do lanche de passagem, também há espaço para sentar e fazer uma refeição. Foto: Gabriel Teixeira.

“É uma história simples, é uma história que está nas entrelinhas, ali que muita gente não repara.”

Ao final da diária, a principal descoberta de Gabriel talvez tenha sido menos sobre um estabelecimento específico do que sobre uma forma de olhar Canoas. Os pastéis, cafés, pães de queijo, cachorros-quentes e almoços encontrados pelo caminho são produtos cotidianos, assim como são cotidianos os balcões onde são vendidos. Justamente por isso, podem passar despercebidos durante anos. “É uma coisa que faz parte da história de Canoas”, resumiu Gabriel. “É uma história simples, é uma história que está nas entrelinhas, ali que muita gente não repara.” Parar diante dessas bancas foi, para ele, uma maneira de finalmente reparar.

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